Marcus Tavares: A César o que é de César

Sempre quando um cidadão morre vítima de bala perdida no Brasil, tristemente boa parte no Rio, ouço as autoridades dizerem que “foi uma fatalidade”

Por O Dia

Rio - Sempre quando um cidadão morre vítima de bala perdida no Brasil, tristemente boa parte no Rio, ouço as autoridades dizerem que “foi uma fatalidade”. Não foi. Tanto eu quanto você poderíamos relatar as prováveis causas, que nada têm a ver com o significado da palavra, empregada de forma errada, colocando a explicação no plano transcendente ou religioso.

O dicionário ‘Houaiss’ afirma que fatalidade tem dois significados: 1) destino inevitável e 2) desgraça. Não creio que as mortes de crianças e adultos na Cidade Maravilhosa tenham sido fruto de um destino inevitável ou de uma desgraça — entendida como falta de graça, ausência de Deus. Questiono se ele teria programado tal desfecho para essas almas. Teria decidido não atender às preces de proteção de tais filhos? Certamente, Deus não tem nada a ver com esta história.

E não tem mesmo. Não se trata de um destino traçado na maternidade, muito menos inevitável. Não é normal, muito menos, concebível aceitarmos que seres humanos possam ser mortos assim. Trata-se de um fato que pode e deve ser evitado a todo custo pelos órgãos competentes.

O que precisa? Vontade política. Formação e treinamento de policiais. Autoridade — e não autoritarismo — da instituição. Investimentos em inteligência. Menos ganância e corrupção. Mais humanidade e compaixão. Estão em jogo vidas humanas, que, infelizmente, parecem valer muito pouco, dado o posicionamento geopolítico e financeiro onde se encontram. Por que isso acontece no Brasil e não em outros países? Por que não conseguimos de fato garantir segurança para todos?

Em 2013, relatório das Nações Unidas revelava que o Brasil era o segundo país onde havia mais ocorrências de balas perdidas na América Latina, sendo o terceiro com o maior número de mortes por elas provocadas. De lá para cá, a realidade, se não piorou, é praticamente a mesma. Somente em janeiro deste ano, no Rio, foram contabilizados 40 casos.

Para Deus, devemos pedir inspiração, discernimento e proteção. Mas sabendo que não é Ele quem estabelece tais fatalidades. Para as autoridades, uma resposta clara, firme, condizente e definitiva.

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Midiaeducação

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