Editorial: O Alemão à espera da ressurreição

Nunca houve pacificação plena no Alemão, como não há em metade das UPPs, mas lá a resistência é a mais feroz

Por O Dia

Rio - Das 38 Unidades de Polícia Pacificadora, a do Alemão é a que mais tem desafiado o Estado desde a ocupação, quatro anos e meio atrás. As cenas da fuga desesperada de criminosos, que deram momentânea sensação de vitória, porém, estão cada vez mais no passado. O presente no complexo é de dor e medo, justo os sentimentos impostos pelo tráfico antes da investida. Mas não só o banditismo apavora a população: a polícia também impinge pavor. Seja em ações desastradas em que inocentes são mortos, seja reprimindo com violência manifestações pacíficas como a de sexta-feira. E, ao redor, está a parte da sociedade que minimiza ou aprova a barbárie.

Nunca houve pacificação plena no Alemão, como não há em metade das UPPs, mas lá a resistência é a mais feroz. E a estratégia tem se revelado ineficaz, haja vista, nos últimos meses, contarem-se às dezenas os policiais mortos e as “balas perdidas” que ceifam inocentes e inundam de desespero a favela. É urgente que se retomem os rumos da pacificação, que tanto sucesso obteve na última década.

A dor de viver numa guerra particular é agravada pela perversidade reinante de não se importar com o que passa no Alemão. Muitas vítimas são inseridas na torpe lógica do “mas também”. “Mas também quem manda brincar no meio de um tiroteio?” foi uma frase apontada à estúpida e injustificável morte do menino Eduardo, quinta-feira. Pensamento insustentável típico de quem não tem empatia.

Diante da crueza das imagens da comunidade reagindo com asco e fúria à morte do menino, até a presidenta Dilma Rousseff soltou nota em solidariedade. Gesto nobre, mas, em outras tragédias, no Alemão, na Rocinha ou num shopping da Tijuca, sobressai o silêncio complacente das autoridades. Quando muito, uma nota protocolar.

O Alemão espera e merece renascer, mas não será neste Domingo de Páscoa. Não com esta polícia atabalhoada, não com este ridículo controle de fronteiras que permite o livre comércio de drogas e a derrama de fuzis, não com o pensamento de que todos na favela estão fadados à pobreza e à violência.

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