Fernando Molica: Os milhões que não têm dono

É possível também que Papai Noel tenha decidido, de uma hora para outra, abrir contas no HSBC suíço

Por O Dia

Rio - A descoberta de que milhares de brasileiros tinham ou têm contas secretas na Suíça revelou que enfrentamos uma perigosa epidemia de amnésia. Muitos dos patrícios citados na lista do chamado Swissleaks negam que tenham aberto tais contas, juram que o dinheiro não é deles.

Um velho ditado define como louco aquele que come excrementos ou rasga dinheiro. Como não seria razoável supor que destacados empresários, artistas, magistrados, advogados e políticos tenham perdido o juízo, vale concluir que eles ficaram sem memória.

É possível também que Papai Noel tenha decidido, de uma hora para outra, abrir contas no HSBC suíço em nome de adultos que, na infância, não tenham recebido presentes de Natal. Vai que bateu uma culpa no Bom Velhinho e ele resolveu se redimir. Como havia o risco de ser baleado por seguranças dos presenteados caso decidisse entrar em suas luxuosas casas para distribuir os mimos, Noel considerou mais prudente abrir contas secretas para seus protegidos. Ele, coitado, deve estar arrependido. Ao ler em seu tablet, lá no Polo Norte, notícias publicadas no Brasil, descobriu que os seus agrados não fizeram sucesso.

Vai ser engraçado acompanhar a CPI que promete investigar o milagre da multiplicação de dinheiro. Como os suspeitos vão justificar essas marcas de ilegalidade em suas contas mais íntimas?

Alguns tentarão acordo com base, digamos, numa doação premiada, oferecerão seus saldos bancários em troca do encerramento da investigação contra eles. Os mais ousados irão ao Congresso Nacional acompanhados de médiuns que provarão, tostão por tostão, que ocorrera um fenômeno de materialização de grana — de tanto pensar em dinheiro, seus clientes conseguiram, de maneira involuntária, fazer com que notas verdes se tornassem reais nas tais contas suíças. Parece até que, inspirado numa velha chanchada, Leandro Hassum se prepara para estrelar a comédia ‘Esse milhão NÃO é meu’.

Mas, enquanto a investigação não anda, vale pedir aos sujeitos que renegam as contas que respeitem a nossa inteligência. Seria bom também que eles evitassem se manifestar, nas ruas e na internet, sobre a roubalheira praticada por terceiros — como prega outro dito popular, antes de apontar problemas alheios, macacos devem olhar para os próprios rabos. Ao contrário desses milionários que hoje se mostram alérgicos a dinheiro, a maioria dos brasileiros não perdeu a memória, o juízo e a vergonha na cara.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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