Leda Nagle: Duvidando, mas torcendo

Comparações entre as dores das famílias de Alckmin e do menino morto no Alemão me chocaram

Por O Dia

Rio - Quando a gente pensa que o ser humano está evoluindo, que a nossa sociedade melhorou, que a tecnologia fez a vida ficar mais prática e mais eficiente, toma um susto e vê que não é bem assim. Perplexa constato, e acho que vocês também, que a intolerância ressurge com violência, promovendo e espalhando o medo e deixando mais clara ainda a maldade humana, agora também nas redes.

Foi assim na campanha eleitoral e se arrasta no cotidiano, ferindo e machucando. Estava assistindo na TV a uma adorável conversa entre Miriam Leitão e Zuenir Ventura quando um plantão da Globonews me avisou da morte de Thomaz, o filho do casal Alckmin, na queda do helicóptero. Na mesma hora, escrevi nas minhas redes que deletaria quem fizesse política da dor deles. Avisei na tentativa de não me aborrecer. De certa forma deu certo. Não precisei deletar ninguém, mas li, nas linhas do tempo de outras pessoas, deboches e maldades diversas. Os entendidos em redes sociais afirmam que o anonimato favorece este tipo de coisa. Mas havia fotos e nomes naqueles comentários repugnantes. O assassinato do menino Eduardo de Jesus no Morro do Alemão, ocorrido praticamente ao mesmo tempo, me comoveu igualmente e as duas mortes tomaram mais dolorosa a minha Semana Santa, já tristemente entregue a repousar, numa tentativa de curar uma gripe.

Comparações absurdas entre as dores das duas famílias me chocaram num grau e de um jeito que me fazem crer que o ser humano só piora. Peço desculpas aos otimistas de plantão, também queria pensar que estamos melhorando como seres humanos, mas perdi este bonde do otimismo. Quem são estas ditas pessoas que se acham no direito de desejar mal ao outro, de gostar da dor do outro? Que gente (?) é esta? É a mesma que é racista, homofóbica, dirige bêbada, se acha melhor que o outro, mais merecedora que o outro? Que não tem nem medo da justiça divina? Porque da justiça dos homens, cá pra nós, faz tempo que esta não parece intimidar. Por conta disto, fico pensando no que vai dar o pacto Humaniza Redes, lançado esta semana, com o objetivo de enfrentar as violações de direitos humanos nas redes sociais. Ofender o outro, agredir, debochar nas redes tem sido uma marca deste tempo e entrou no mundo virtual com vigor e descaramento. As ofensas racistas e sexuais tão frequentes nas pequenas e grandes desavenças do cotidiano se deslocaram para este novo palco com desenvoltura, com a mesma falta de ética e de civilidade. Vou torcer pro pacto dar certo, mas duvido e sabe por quê? Você conhece alguém que foi preso e cumpriu pena por ser racista? Sabe desde quando existe a Lei Afonso Arinos, que põe fim à discriminação racial no Brasil? Desde o dia 3 de julho de 1951. Portanto, há quase 64 anos. E ainda não funcionou.

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