Por bferreira

Rio - Esses diálogos que surgem do nada, da serragem cobrindo o piso da birosca: “E você resolveu ir pra Marajoara, qualidade de vida...” “Isso, meu chapa! Lá, o jornaleiro dá bom dia, o tripeiro pergunta pela família. Cidade pequena, outra coisa!”

Já morei em 20 bairros do Rio de Janeiro. A ponta seca do compasso cravada no meio campo do Mario Filho abre um arco da Vila Aliança a Copacabana, a cidade de chinelo ou salto alto, de barro e asfalto, e detalha uma única semelhança, o convívio. Doutor Américo, meu dentista artesão, escultor de caninos feito a mãe natureza, anda descalço pelo Leblon como um tupinambá. Íntimo de cada Ataulfo, dos Dias Ferreira, fixo no Clipper, o bar da Carlos Góes, a rua do antigo Cine Leblon, só falta plantar o lúpulo do seu chope diário na jardineira da esquina, semente regada pela espuma que escapa da tulipa. Nós, cariocas, nascemos com o cromossomo da amizade na cervical do sentimento. A olho nu, cumprimentamos até o punguista que te abraça com a sutileza de um tamanduá. Aceno pro Seu Manoel mesmo sabendo que ele me rouba no pendura. Já paguei um limão da casa quando pedi um gomo pra apurar a sardinha. Aliás, o meu primeiro salmão degustado veio no papel. O gerente confundiu a savelha e cobrou o rosáceo na conta rabiscada.

O trânsito está mais pra carroças numa lentidão paulistana. Meu transporte é taxi. Galopa na mesma velocidade. É o tempo que eu tenho pra saber toda a vida, a árvore genealógica de galho a galho, do condutor educado, apenas por perguntar se a menina na foto do painel, um três por quatro emoldurado, era sua filha. Enquanto passava o dedo sobre os valores na tabela, fez o último convite: “Vamos marcar d’eu te apresentar à cunhada. Um piteuzinho!”

Entendo que os muros no interior são mais baixos e as janelas permanecem escancaradas no breu da noite. Portas sem chaves, cerca de bambu, motivos de inspiração pra Tavito e Zé Rodrix consagrarem uma canção, mas levar as trouxas pra uma distante freguesia por um banal cortejo de barbearia? Prefiro a má vontade. Insisto na cidade mesmo à beira de um diagnóstico bipolar. Siameses, somos irônicos e afetuosos, ginastas ou estátuas vivas nos botequins mais vagabundos. Ainda vejo alguém ceder o assento pra um merecedor, um flerte discreto na vizinha que digita a senha do celular. O Rio é o meu parente mais próximo. Acordo ao seu lado todos os dias, nublado ou azul, somos cria da mesma costela. Um ambulante me oferece um adesivo “O Último a Sair Apague a Luz”. Eu retribuo com os versos de Nelson Cavaquinho em ‘Juízo Final’: “ O sol há de brilhar mais uma vez...”

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