Por bferreira

Rio - Alvíssaras! Levanto meu copo com cerveja Erdinger sem álcool para brindar os gloriosos 50 anos de carreira do mais lírico dos sambistas. Somos amigos há 60 anos. O tempo passa mais depressa que o “ai, porém”, breque de Jair do Cavaquinho em ‘Foi um Rio que Passou em Minha Vida’. A gente se conheceu na casa do boêmio e economista (nesta ordem) Raul Hazan, na Rua Aperana, onde a turma da pesada se reunia. Aos sábados era parada obrigatória de uma patota de arquitetos, escritores, artistas plásticos, jornalistas, mas principalmente o pessoal do samba: Zé Kéti, os dois Nelsons, Cavaquinho e Sargento, e outros bambas.

O scotch do anfitrião rolava generosamente, o que resultava em grandes porres e cantorias que às vezes só acabavam com a chegada da polícia, chamada pelos vizinhos. Paulinho era de uma timidez de que até hoje ainda não se livrou. Eu diria que hoje é um tímido profissional. Chegava sempre com o inseparável parceiro Mauro Duarte, Bolacha para os íntimos. Rafael Rabelo, violonista genial, ficava embasbacado com João Bosco, recém-chegado de Ouro Preto: “Como esse cara toca assim, de ouvido, sem conhecer uma nota de música?” A festa terminava sempre com a maioria do pessoal pulando com roupa e tudo na piscina, que, felizmente, era rasa.

A gente sempre se esbarrava pelos bares, gafieiras e escolas, principalmente a Portela, onde Paulinho, filho de bamba, já era muito considerado. Nunca me esquecerei de uma roda de samba, no alto do Morro da Mangueira, sol a pino, calor de rachar, todo mundo se locupletando de cachaça, cerveja e feijão até a Lua chegar. O porre acabou no Buraco Quente. E venerando nossa deusa, Clementina, com aquela voz que Deus lhe deu e depois esqueceu a fórmula. Não posso deixar de falar no ZiCartola, onde a rapaziada babava diante dos inenarráveis joelhos de Nara Leão — e o Paulinho já brilhava. A esticada era no Bar Luiz, ao lado, na Estudantina, na Praça Tiradentes, e depois sei lá. O Rio era uma maravilha, e a gente achava que o Brasil iria dar certo. Não deu, mas a gente foi levando.

Quando a redação do ‘Pasquim’ era na Rua Saint Roman e a barra já estava pesando, Paulinho subia sempre a ladeira para nos visitar. Ficava horas xeretando nossos arquivos, mas estava interessado mesmo era na minha secretária, Lila, irmã do Rafael Rabelo, que acabou virando seu cunhado. Perdi uma grande secretária, mas valeu, ele merece. Paulinho, você foi um rio que passou nas nossas vidas. Favor continuar passando.

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