Por bferreira

Rio - São de desanimar o brasileiro as notícias na segunda-feira sobre o país e a vida nas cidades. Haja ânimo para iniciar a semana sob a chuva das más novidades. Alguém tem recebido boas-novas? Não sejamos pessimistas, claro que alguém as recebe, uma vez ou outra. Mas, na falta dela, tem até os que riem da própria dor quando se veem sem a alegria da boa notícia.

A questão é: como sobreviver emocionalmente a todas as barbaridades apresentadas nos jornais e na TV? Não tem manual para isso, as situações são variadas, acontecem problemas vindos de onde não esperamos, que demandam um equilíbrio fora da nossa realidade, já repleta das desordens inevitáveis. Acabamos possuindo sofrimentos, acatamos dores quase como um desígnio da vida. O inevitável refrão: “Viver é sofrer, é na dor que crescemos, nascemos para sofrer.” Por que não aprendemos no prazer? Ele não ensina? É mau professor? Faz mal? Engorda e faz crescer? Oscilamos entre a dor e o prazer.

Nosso estado de humor é flutuante, não tem jeito, está diretamente relacionado a condições climáticas, surpresas do dia a dia, estabilidade no emprego, problemas com filhos, vizinhos, governo, prefeitura, Imposto de Renda... é longa a lista. Você pode completar com os seus problemas, fique à vontade. Tudo influencia no amanhecer. Atravessar os dias e os meses vai se tornando complicado, e sentir felicidade é raro. Essas vivências dominam o emocional. Não temos a estabilidade dos objetos, somos instáveis, reativos e frágeis, sempre buscando equilíbrio para atravessar a vida.

Mas o cardápio é pesado. Há a tendência de superdimensionar os acontecimentos negativos em detrimento dos positivos. Negatividade humana? Pode ser! Convenhamos, sofrer é lugar-comum; felicidade, não. Temos pouca intimidade com esse sentimento, raro no dias atuais. Quando o sentimos, nem estacionamos muito nele, já com medo que acabe. E nessa movimentação acabamos não vivendo a plenitude deste sentimento. Para a dor, convenhamos, embarcamos sem cerimônia. Quem já não escutou reflexões populares do tipo “cada um tem sua dor” ou “estou carregando a minha cruz”. Mas ouvir dizer que está carregando felicidade e que cada um tem sua felicidade, nunca ouvi, até porque, isso é secreto, raro, quem vive, não quer dividir de modo alguém — sem falar do medo da inveja que seca a vida e até pimenteira.

Fernando Scarpa é psicanalista

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