Por felipe.martins

Rio - A rainha da cocada preta da Inglaterra, Elizabeth II, perdoou um genial veado que salvou milhões de vidas, a dela incluída, pelo fato de ele ser veado. Ora, se ela perdoa, ele continua a ser considerado um pecador, no mínimo, e um criminoso, no máximo. Neste jogo jogado, há 65 anos da condenação e dois anos do perdão, eu que tenho 53 me arrepio porque esta Rainha e seu sistema de leis e governo condenaram a bicha à castração química: ele, depois de decifrar o código secreto dos nazistas, auxiliando-nos (o Brasil era um dos Aliados) a ganhar a Segunda Guerra Mundial, foi condenado por gostar de praticar sexo com homens, a tomar hormônios demasiados para o organismo. Não mata, mas mata de outro jeito. Uma pena de morte mais limpa, que geralmente leva o condenado a se matar. Minha pobre amiga/irmã comeu uma maçã com cianureto (olha aí a Branca de Neve da modernidade!).

Trato Alan Turing de veado, bicha, amiga, irmã, porque é isso que somos: uma grande confraria de assumidos, cada um pagando um preço. Ele matemático, eu carnavalesco, a outra cabeleireira, tudo farinha do mesmo saco que não consegue esconder seu afeminado. E vamos combinar que se a civilizadíssima Inglaterra não conseguia lidar com isso há seis décadas, por aqui pelos trópicos vira e mexe e um de nós é assassinado também. Lá era oficial, assumido contra os assumidos, aqui é velado, disfarçado, fatalidades.

Para mim a Inglaterra não deve perdão aos 50 mil que estão na fila esperando por isso. A Inglaterra tem que pegar a palmatória e repetir mil vezes: “Nós estávamos errados, não tem nada de mais na criatura querer fornecer o seu brioco para outro adulto são, consensualmente”. Quem é a Inglaterra para mandar na pulsão sexual de seus habitantes responsáveis e pagadores de impostos? Aliás, quem são os países do mundo que podem condenar o desejo de seus cidadãos? Da mesma forma como é brilhante o divino

Alexandre Frota (ele, ao lado de Valesca Popozuda, estão se firmando em meu cérebro como Adão e Eva brasileiros, o casal original de nossa amada nação Brasileira, porque quanto mais o tempo passa melhores ficam) vir a público dizer que muitas destas vozes que nos condenam são gays enrustidos, disfarçados de líderes religiosos. E quando Frota obriga o entrevistador a decidir o que ele é, encerrando com “assim é se lhe parece”, colocando no olhar do outro a condenação, estamos patinando na mesma lama da Rainha: a culpa, se existe, não é nossa, dos veados e lésbicas. A culpa é de quem governa para pênis e vaginas, condenando o órgão sexual à anormalidade.

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