Por bferreira

Rio - O drama da água é antigo no Rio. Há meio século, a população cresce, e o consumo aumenta — no uso humano e no industrial. Governantes têm feito através dos anos uma boa gestão da água e do saneamento, mas foi atropelado pelas condições climáticas desfavoráveis. Vivemos ainda do Guandu, a “obra do século”, projeto cuja partida foi a Adutora Veiga Brito. E o motivo é que a cidade, então Estado da Guanabara, teve dois governantes, inimigos políticos e até pessoais, mas ambos dotados de espírito público e amor à cidade.

Carlos Lacerda começou o aproveitamento em larga escala do Rio Guandu, muito modesto para a missão, mas que passou a receber água em quantidade e qualidade do Sistema Light, abaixo da Serra das Araras. Confiou a tarefa ao engenheiro Luís Roberto da Veiga Brito, que depois foi deputado federal, na Arena, e presidente do Flamengo. Foi um sucesso inequívoco, e a primeira fase da grande obra foi entregue ainda por Lacerda, que fez uma administração de excelente qualidade.

Negrão de Lima, tão logo assumiu, declarou que continuaria aquela e todas as demais obras do antecessor. E acrescentou seus projetos, o acesso à Barra da Tijuca, a duplicação da Avenida Atlântica e a remoção das favelas do entorno da Lagoa. Negrão revelou-se ali um administrador-estadista, diferente de Lacerda, dinâmico gestor, tocador de obras, mas sem a visão de futuro que só os estadistas possuem. Também seria demais no homem que é considerado por muitos a maior cabeça do Brasil no século 20, pois foi escritor, poeta, tradutor, orador impecável, jornalista, floricultor e líder político nacional. Brilhante em tudo.

Entre as obras a que Negrão deu continuidade foi a segunda fase do Guandu, que inaugurou em memorável discurso em que ressaltava a continuidade da obra da administração anterior e agradecia o apoio federal e do Banco Interamericano do Desenvolvimento. Como na ocasião o grupo lacerdista explorava muito as inaugurações das obras iniciadas antes, terminou o discurso citando Victor Hugo, que disse haver duas coisas belas na vida: a consciência tranquila e uma noite estrelada.

E tiveram a coragem de publicar um livro alusivo aos 450 anos do Rio e omitiram o nome de Negrão de Lima. O cúmulo do desconhecimento da cidade e seus benfeitores. Muito feio!

Aristóteles Drummond é jornalista

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