Por felipe.martins

Rio - Depois de amanhã, estarei em Brasília participando do Fórum ‘Liberdade de Imprensa & Democracia’ (em tese, existem no Brasil). Em geral, não aceito convites para discursar em debates; geralmente fala-se muito, e não se revolve nada. Eu nunca iria às dez horas da manhã de uma segunda-feira a um auditório para ouvir três cartunistas falando sobre o ‘Charlie Hebdo’. Mas o convite partiu de um amigo que admiro, Silval de Itacarambi Leão.

Ele conseguiu o milagre de fazer sua revista, a ‘Imprensa’, completar 23 anos, batendo o recorde do ‘Pasquim’, que aguentou 22. À medida que fico mais velho e lento, tenho a sensação de que as coisas acontecem numa velocidade cada vez maior. O atentado que matou meus colegas do ‘Charlie Hebdo’ parece remoto. Quase irreal, como se tivesse acontecido em outra dimensão. Melhor parar por aqui.

Parecem (e são) divagações de um velho gagá. Quem mandou aceitar o convite? Agora é suar frio até a hora de encarar um microfone, algo que trava a suposta verve de um cartunista com mais de 60 anos de batente. Sei que todos, do Papa até a anta de tênis, condenam a “barbárie”, palavra que rotulou o massacre. Mas se alguém me perguntar se eu acho que humor deve ter limites, direi o que penso, depois de muito repensar: não, não deve ter nenhum limite. Outro, já meio indignado, insistirá: “Os cartunistas não devem respeitar costumes, raças, crenças, religiões, nada?” É muito simples, na minha cabeça: o respeito é incompatível com o humor.

E vou mais além: o cartunista que fez o desenho mostrando a face de Maomé (delito punido com a morte, de acordo com a religião deles) sabia que estava se arriscando. Os que o mataram também foram coerentes, agindo conforme manda a sua fé (graças a Deus, os terroristas não viram a minha charge no DIA). Ainda sobre o atentado, um dado relevante: a tiragem do ‘Charlie’ era deficitária, menos de 20 mil exemplares semanais, a mesma do ‘Pasquim’ quando foi à falência, em 1991. Na semana seguinte, a edição de um milhão de exemplares esgotou. Eu não pregaria um “Je suis Charlie” na minha camisa. Motivo: Siné disse, na sua coluna no jornal, sobre o filho de Sarkozy: “Esse menino vai longe.” É que “o menino” mudou de religião para casar com a filha de um ricaço judeu. O editor do ‘Charlie’, um tal de De Val, mandou Siné pedir desculpas. Resposta: “Prefiro cortar meus bagos.” Foi demitido por antissemitismo.O fato é que ele discordava da linha de humor do ‘Charlie’, mais escatológica do que política.


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