Por felipe.martins

Rio - Os passos que impulsionam a trilha do conhecimento e dos saberes do homem passam pela necessidade de reflexões sobre a memória do que veio antes, da anatomia da história, das chamadas raízes. Que muitos engraçadinhos reacionários e cegos têm a petulância de relacioná-las às árvores. Burrice que muitas vezes ouvi de certos compositores quando exortados a considerar as fontes da música popular e sua grandeza.

Há dias assisti à posse de Dom Orani, cardeal-arcebispo do Rio, no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB). Algum desavisado poderia arguir que um ato como este seria corriqueiro e não mereceria atenções mais detalhadas deste escriba. Engano e falta de cultura. Porque o IHGB, fundado a séculos dentro do Rio, preserva praticamente a fonte das coisas, o terreno da memória, num país desprovido de atenções com seu passado.

Pois bem. Dom Orani, um missionário e evangelizador, que acolhe com igual intensidade a população carente (seu rebanho preferencial) e as fontes que a consolidaram ao longo dos séculos, foi recebido como sócio na austeridade quase clerical do Instituto. Seu presidente, o historiador e acadêmico Arno Welling, ao falar dos 25 sacerdotes que o antecederam na Casa, recepcionou o cardeal com intensas palavras de saudação e de cultura.

Ao que Dom Orani respondeu com afiadíssima oração laica, que perfilou a grandeza de um dos fundadores do Brasil, Padre José de Anchieta, polígrafo sábio e santo, que fez provocar na terra cabralina as primeiras incursões da fé e do saber europeu. Puro deleite e erudição. O cardeal traçou perfil revelador do jesuíta Anchieta — o maior dentre todos — que testemunhou ( e escreveu crônicas decisivas, grandíssimo escritor que foi) a fundação da cidade do Rio, ao lado de Estácio de Sá, ajudando-o, dando-he conselhos... e orações. Um discurso perfeito para adentrar a Casa da História nos 450 anos da cidade de São Sebastião.


Ricardo Cravo Albin é presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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