Por bferreira

Rio - Assim que vi o Rio Preguiças banhando as areias alvas dos Lençóis Maranhenses, em Barreirinhas, todos os caciques e morubixabas que fazem parte de mim pularam na frente. Saudades de mim, saudades do menino dos igarapés da Amazônia. Acessei o provedor de música e num transe procurei desesperadamente Tamba Tajá, a trilha sonora perfeita para aquilo que eu via com alma, o enxergar que passa pela retina mas vai além dela. Enxergar com nariz, ouvidos, pele, gosto, ser possuído pela parte da memória que volta em pororoca.

Fafá de Belém logo começou a cantar seu long play de estreia em 1976, e a canoa ia de proa, e de proa chegaríamos lá. Eu tinha me esquecido do calor transtornante, mas que ilumina aquela gente como se reais não fossem: são espectros de luz e sombras, sempre avermelhados. Ir para esta região é como bem disse Enoque, uma maratona. Por terra, atravessando com balsas e subindo e descendo, a montanha russa dos 4x4 é inacreditável. Só para os fortes, que têm coluna no lugar e resistência a 1 hora de pula pula. Quando chegamos, a boca aberta: 5 minutos para acreditar nas dunas sem fim, e a vontade louca de deitar na primeira das milhares de lagoas. Nunca mais sair de lá, ficar boiando para sempre naquilo. Por rio, navegar 40 minutos na voadeira até a foz, onde o oceano ondula sobre a água doce. Farol de Mandacaru, povoados encoqueirados como cenário de gravação de filme. Morar no irreal de beleza é que tipo de realidade? Mas esta viagem é também para os fortes: na volta contra o vento, o respingo d'água te banha e o sol e sopro de ar te secam, briguentos. Só não podiam falhar os fones de ouvidos, porque Fafá gritava “quem nasceu pra semente nunca vai ser ventania”. E por fim pegar o aviãozinho e ver o milagre da natureza em sobrevoo. O monomotor lutando como folha de papel ao vento, e lágrimas brotando dos olhos diante de tanto esplendor. Opulência de areia cristalina em águas espelhadas. Lindo.

E aí o caboclo Kennedy, colunista local, determina: vamos Marocar! (gíria maranhense para o ato de virar Marocas, a fofoqueira). Pois maroquemos, cariocas: na Casa do Maranhão, belo prédio histórico nas margens da baía de São Marcos, na Ilha da Assombração que São Luís é, dois irmãos meus, Rivânio e Itamilson, prepararam o mais belo lançamento de livro que um autor pode ter: entre fitas, burrinhas penduradas e um deslumbrante altar da festa do Divino, foram chegando os convidados da cultura ludovicense (adjetivo para os nascidos ali): liderados pela querida secretária estadual de Turismo, Delma Andrade, a gente do coco, tambor de crioula, bumba meu boi e do samba foram junto comigo revivendo Joãosinho Trinta, eminência nacional.

Você já foi ao Maranhão? Pois vá, abestado...

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