Por bferreira

Rio - Comer não está nada fácil. E olha que nem estou falando das contas dos restaurantes, nem do preço dos alimentos dos supermercados, nem do trabalho que dá cozinhar. Estou falando deste tempo onde o que comer e o que deixar de comer ocupam o centro das atenções. É o tempo em que o sem isto ou sem aquilo é o assunto. É o momento do bolo sem farinha, do iogurte sem lactose, do biscoito sem glúten, do doce sem açúcar. Todo dia tem uma novidade sugerida pela indústria de alimentos ou pelas lojas de produtos naturais, transformada em descoberta do ano. Já foi o tempo da quinoa, da farinha de arroz, da chia. É o tempo da tapioca, do painço, da maca peruana, da farinha de coco e do açúcar de coco.

A internet ajuda a divulgar, competentes nutricionistas ajudam a explicar e a gente ajuda a pagar as novidades. Sim, porque os alimentos do tipo sem isto ou aquilo são mais caros que os produtos comuns, feitos do jeito de sempre, cheios de sódio, de açúcar e de gordura saturada. O ovo, que já foi vilão, foi reabilitado e liberado, o sal deve ser evitado e o açúcar é o vilão do momento. Não me espanta que as pesquisas do Ministério da Saúde revelem que a população mais pobre seja a população que mais engorda e que come pior do ponto de vista da qualidade. Antigamente, os produtos industrializados eram coisa de ricos e os mais pobres tinham menos acesso a eles. E, por conta disto, os mais pobres comiam melhor, porque tinham menos acesso a produtos industrializados e a comida de verdade era a única opção ou a mais acessível. Hoje em dia, por conta do crescimento da indústria e do poder viciante do açúcar e dos conservantes, a situação piorou do ponto de vista da saúde porque se inverteu.

O pacote de biscoito recheado, veneno puro, ficou mais barato que a banana, só para citar um exemplo. Na esperança de ter mais saúde e viver mais e melhor, é preciso dar um jeito de democratizar as informações, de ensinar a toda a população a ler os rótulos dos alimentos para fazer escolhas mais saudáveis e a voltar a comer comida de verdade. Mas não é só no produto industrializado que mora o perigo. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos e, por conta deles, verduras e legumes são mais bonitos e maiores do que já foram um dia, mas são mais contaminados. Todo mundo precisa saber disto e é preciso que as autoridades façam a sua parte e exijam o uso menor dos agrotóxicos nas plantações. E não venham me dizer que o ideal seria comprar somente produtos orgânicos. Eu sei disto. Mas quem pode pagar por eles? A grande maioria precisa ser mais informada, aprender a ler rótulos, saber como desinfetar os alimentos naturais, aprender a fazer melhores escolhas e se preocupar em comer menos veneno. Isto também é educação.

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