Por bferreira

Rio - Hábito é um substantivo alugado das túnicas religiosas pra explicar nossos rituais e manias. Eu tenho várias. Uma delas é comer a clara do ovo pelas beiradas, deixando a gema, inteira, pra uma única mordida. Leio os jornais de trás pra frente, não uso sapatos com cadarço e só saio de casa depois de beijar pelo menos uns cinco santos do meu altar caseiro: Santo Expedido, Santa Cecília, Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião e, claro, Jorge, o Santo Guerreiro.

Parêntesis. Meu ídolo Zeca Pagodinho coleciona imagens do cavaleiro da Capadócia capazes de inibir qualquer dragão desavisado. Na minha época de torcedor fanático, caso o gol saísse numa chuveirada, seriam 90 minutos de água no ralo. Peço perdão ao Cantareira F.C. por confundir costume com superstição, mas gol também é patrimônio da humanidade.

Num antigo samba-canção, ‘Manias’, gravado por Dolores Duran e Lúcio Alves, o verso “de guardar fósforo usado, antes da caixa outra vez” acaba comigo. Aliás — um instante, maestro —, a autoria desse clássico brasileiro é de Flavio Cavalcante.

Vou me cercando de inconscientes orientações feito um Jack Nicholson em ‘Melhor é Impossível’. Compulsivo com a temperatura da bebida de ocasião, irritado com os diferentes sons do celular, meu e do vizinho de mesa, vou somando tolas implicâncias pra me infiltrar na felicidade.

Minha última cisma é guardar histórias de taxistas. Sentei no banco traseiro do amarelinho com a minha mulher e três sacolas de supérfluos. Percebendo as janelas abertas, perguntei ao motorista, que já ligara o taxímetro: “Tem ar?” O gaiato girou o pescoço e saiu soprando na minha cara. O próprio ventilador humano.

Dessas constantes viagens a trabalho, me dispus a adivinhar o portão de desembarque. Um passageiro frequente nem perde tempo com essa expectativa, mesmo com ‘fingers’ vazios, e o voo termina na escada de rodinhas e fila pro ônibus de apoio. Enfim, cismas com cores, a cadeira no jantar, cismas do cotidiano.

Como hábito no tambor do Brasil, a Cidade Maravilhosa, estou tendencioso com as obras que se manifestam nas esquinas de trajeto futuro. Parecem greves de acesso, labirintos de metrópole, confundindo mãos, apontando o mar pra outras janelas.

Atravesso o Túnel 450 e avisto o Aquário Marinho, de corvinas de linha e baleias. Cismei que vai dar certo! O MAR, os armazéns do Porto, o tal veículo leve sobre trilhos tangendo a civilização apressada da Rio Branco. De um lado, a Baía, de outro, eu e meus costumes, a cidade como lazer, bebida e histórias do dia a dia.

Teima minha. E parafraseando Cartola: Todo tempo que eu viver, só me fascina você, meu Rio.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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