Por bferreira

Rio - O Rio é bonito só no plano geral. Mas no close a coisa não é bem assim. Por aqui, na Cidade Olímpica, tudo é perigoso, usando frase de Caetano Veloso, e, ao mesmo tempo, tudo é divino, maravilhoso. Não se pode nem dar uma volta de bicicleta às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, nem no Aterro. Assim como não se pode usar relógio ou cordão de ouro nas ruas do Centro. Igualmente, não se deve falar ao celular caminhando pelas ruas de Copacabana ou da Tijuca. Do Méier ou de Jacarepaguá. Mas não caia na cilada de achar que é uma questão de classe social ou de ter ou não ter dinheiro.

Nos becos e vielas das favelas, ou comunidades, é igualmente perigoso, e não se pode “andar tranquilamente na favela onde eu nasci”, porque pode vir uma bala perdida na sua direção e te encontrar. A Cidade Olímpica tem horror a segurança. É um enxugar gelo que não tem fim. Porta arrombada, coloca-se cadeado. Vai durar uma semana, se tanto, o novo esquema de segurança na Lagoa, que foi mencionado ontem, e, com certeza, será citado hoje pelas autoridades de segurança ao comentarem o assassinato do médico na Lagoa na noite de terça-feira. Foi assim quando esfaquearam lá mesmo um adolescente de 14 anos, para mencionar outro caso recente. É sempre assim. Na semana seguinte, como num passe de mágica, volta tudo ao normal.

Normal? Então é normal não poder circular de bicicleta na cidade que gasta milhões para fazer dezenas de ciclovias que, por falta de segurança, ninguém vai poder usar? Ou vai ter que usar bicicleta velha, por recomendação da associação dos ciclistas? É normal prender e soltar, quase que compulsivamente, maiores e menores infratores? É claro que vai aparecer um estudioso social (que me perdoem os sérios profissionais da área que não têm compromisso político) que vai falar das diferenças sociais, da falta de oportunidades etc, etc. É óbvio que as medidas sociais são urgentes e que é preciso comprometimento dos governos com a questão da formação, educação e da criação de empregos para todos, mas é preciso também proteger a população que vive e insiste em usar a cidade onde nasceu.

O medo é parceiro do trauma, do preconceito e do adoecimento da população. O Rio só poderá ser efetivamente uma Cidade Olímpica quando deixar de se parecer com a dona de casa relapsa, que deixa sua casa na maior bagunça, o tempo todo, mas quando vem visita arruma tudo e guarda a bagunça debaixo do tapete, para mostrar pro visitante que é organizada. Chega desta postura falsa, de que nada está acontecendo, de que vivemos numa ilha de esportes e lazer. Os fogos de artifício e as rajadas de metralhadoras estão aí. E lembre-se: andar de bicicleta pode ser fatal. Usar relógio e celular também. Como assim normal?

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