Editorial: Como explicar o aumento do Judiciário?

Não se sabe os interesses do Senado com essa manobra. Mas, sem sombra de dúvida, não são os mesmos de que o país mais necessita: austeridade e zelo com o dinheiro público

Por O Dia

Rio - Os cerca de 120 mil servidores do Judiciário Federal estão muito perto de ganhar um exponencial aumento de salário — a despeito do delicado momento da economia e do ajuste fiscal. Como O DIA mostrou ontem, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, por unanimidade, faixas de reajuste que chegam a 80%. A medida ainda tem de ser ratificada no plenário, mas não há indícios de que a votação contrarie a indicação do colegiado.

Definitivamente o cenário não é propício para exageros como este — em verdade, como este espaço defendeu diversas vezes, a administração pública deveria se preocupar mais com as contas do país. Hoje O DIA traz duas notícias que ajudam a entender a crise: o desemprego voltou a subir, batendo 6,4% em abril, maior nível em quatro anos, e famílias retomaram o hábito de estocar alimentos, como forma de driblar a inflação e a queda do poder de compra. Não por acaso o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, que ajuda a calcular o PIB, recuou 1,07% em março. Também hoje está prevista fala do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, com mais medidas de “contingenciamento”.

Servidores têm lutas históricas contra perdas salariais e merecem aumento como quaisquer trabalhadores. Mas é de se duvidar que parlamentares agiram imbuídos deste sentimento de reparação.

Como, então, encontrar justificativa plausível para este aumento? Analistas o consideram mais uma derrota que o Senado impõe à presidenta Dilma. Mais animosidade dentro da disputinha que se tornou a convivência entre Legislativo e Executivo. Neste round, a pancadaria envolve o Judiciário, cuja categoria está a um passo de, involuntariamente, abrir cratera de R$ 25 bilhões no Orçamento — que vem sofrendo cortes de todos os lados. Só este ano, o impacto é de R$ 1,5 bilhão. São desajustes como este que acabam com as contas públicas e, mais tarde, em momento de crise grave, prejudicam os trabalhadores, que veem a inflação corroer seus vencimentos.

Não se sabe ao certo os interesses do Senado com essa manobra. Mas, sem sombra de dúvida, não são os mesmos de que o país hoje mais necessita: austeridade e zelo com o dinheiro público.

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