Editorial: As reais zonas de exclusão

Pior exclusão, porém, é aquela causada pelo Estado em partes significativas da cidade, onde por muito tempo faltou tudo

Por O Dia

Rio - Ainda no calor do bárbaro latrocínio do médico Jaime Gold, a mídia, aí incluindo reportagem do DIA, fez levantamentos e publicou mapas dos pontos mais perigosos do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e do Aterro do Flamengo. Interpretação desse atlas das atrocidades urbanas sugeriria pontos a evitar, ou zonas de exclusão, como compôs Herbert Viana em ‘O Calibre’: “Por que caminhos você vai e volta? Aonde você nunca vai? Em que esquinas você nunca para? A que horas você nunca sai?”

Mas a mesma canção pondera, versos adiante: “E a vida já não é mais vida, no caos ninguém é cidadão.” Quais as reais zonas de exclusão? Decerto que ataques a faca no Rio grassam por incompetência da Secretaria de Segurança no patrulhamento ostensivo, que se restringe a “reforço” sempre que se noticiam casos escabrosos. Mas esta é uma exclusão decorrente de uma consequência.

Pior exclusão, porém, é aquela causada pelo Estado em partes significativas da cidade, onde por muito tempo faltou tudo: escolas decentes, ensino em tempo integral, atividades extraclasse, capacitação, cultura e lazer. Nesse vácuo, o crime prospera, e basta um receptador de bicicleta roubada ter clientela para fazer disparar ataques. O adolescente acusado de matar Gold viveu essa exclusão, como reconstituído pelo DIA esta semana — não que isso seja pretexto para lhe passar a mão na cabeça, pois índole, compaixão e apreço à vida alheia são valores mais intrínsecos e menos circunstanciais.

É preciso parar essa sinistra roda das zonas de exclusão, ou em breve não sobrará cidade livre de assaltantes ou de desassistidos. E exigir “mais polícia” e encarcerar gente de 14 anos não vai adiantar.

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