Jaguar: Malucos do Rio (2)

Emeric Marcier, quando ficava de porre, insistia em trocar uma tela dele por um cartum meu. Me arrependo de não ter topado. Seus quadros hoje valem uma boa grana

Por O Dia

Rio - Malucos-beleza, espécie em extinção. Davam um ar meio surrealista à cidade. Os malucos de hoje são outros, alguns são até eleitos. Esqueci, por exemplo, do Zulu, que andava com um fraque desbotado. Vira e mexe subia num banco e proferia discursos sem pé nem cabeça. Quando queria elogiar alguma coisa, dizia que era “sinistra”. Vivia às custas do ‘padrinho’ Albino Pinheiro, que andava rodeado por uma corte de malucos, como o francês Renné e o belga ‘conde’ Douglas, que chamava os garçons dos botecos de “maître d’Hotel”.

Conta a lenda que os dois se conheceram na Legião Estrangeira. Tinha o Chita: andava de sunga no Arpoador imitando os trejeitos da macaca do Tarzan. Se houvesse um concurso de imitadores da simiesca vedete de Hollywood, a original ficaria em segundo lugar. Tinha o Raul Vovô, boa-pinta — parecia um viking — que despertou paixões entre o mulherio ipanemense. Quando o conheci estava um caco. Sempre no Veloso (atual Garota de Ipanema), com um copo na mão e um sorriso de beatitude. Não falava nada e ficava até o bar fechar. Ninguém sabia onde dormia. Fausto Wolff deu-lhe guarida. Desistiu depois que Raul Vovô bebeu todo seu estoque de bebidas, inclusive a loção de barbear.

Tinha a Silvinha Maconha, que não se perca pelo nome, como diz Hélio Fernandes. Plantava bananeira na praia, de biquíni. Outros, não digo malucos, mas gringos excêntricos, encontráveis no velho Jangadeiros, nos anos 50: o italiano Manfredo Colassanti, que se declarava fascista de carteirinha e fã de Mussolini. A esquerda festiva o adorava. Só mesmo naquela Ipanema. Outro: Emeric Marcier, também encontrável em Ouro Preto. Quando ficava de porre insistia em trocar uma tela dele por um cartum meu. Me arrependo de não ter topado. Seus quadros hoje valem uma boa grana.

Fiquei surpreso com a indignação de alguns leitores porque disse na tal crônica que o Gentileza, de maluco-beleza, não tinha nada, era um cara truculento. Quem sabe da vida dele é Eliana Caruso: em 1968, quando estudava na Faculdade de Letras da UF, na Avenida Chile, foi assediada agressivamente, com suas colegas, pelo tal sujeito. Ele vociferava, brandindo seu cajado para as meninas com batom e saía pelos joelhos: “Vocês vão para o Inferno, mulheres pecadoras!!!” Pense nisso, prefeito, antes de assinar o decreto transformando o Gentileza em patrimônio do Rio. Eu mesmo, se bobear, vou acabar virando maluco-beleza: “Aquele velhinho de boné que fica zanzando pelo Leblon.”

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