Por bferreira

Rio - Não se pode adoçar o sal, escreve-me o leitor. A mensagem foi a respeito de minha última coluna, em que, perplexa com a onda de ódio aos cariocas depois da explosão de um apartamento em São Conrado (nos comentários, surpreendentemente, os leitores do site G1 execravam o povo do Rio de Janeiro), eu relatava muito da beleza de quem vive aqui.

Passara o dia fazendo esse exercício, depois de voltar de viagem a outro país, tentando entender por que, numa reportagem trágica, o preconceito contra o Rio se manifestou. Há beleza e bondade, há que se separar o joio do trigo. Não somos nós, também, vítimas, sofredores? Não nos compadecemos das dores alheias? Horas depois de mandar o texto para a redação, voltaria de bicicleta pelo mesmo caminho em que o médico foi assassinado, o que só soube à meia-noite. Em casa, olhava minha foto feita durante o passeio na Lagoa, pensando no crime que deixou todos perplexos e ainda mais sofridos. A dor não foi por eu ser de classe média e o “crime estar perto”.

Que tristeza ainda maior, essa que se tornou rotina, de reduzir tudo à briga de classes. Não vou entrar nessa questão, que existe e é latente, mas dizer que o sofrimento é o mesmo e é muito profundo. O sofrimento com as tragédias. Com a dureza da vida e da perda da civilidade, da falta de humanidade. Criticam tudo. Como sofrer pelo assassinato dos cartunistas do tabloide francês ‘Charlie Hebdo’ com mais intensidade do que pelo massacre de milhares de crianças durante um ataque terrorista? Esse era o tema das discussões acaloradas do início do ano. Nem sabem qual o seu nível de envolvimento e conhecimento dos assuntos e já estão julgando.

Reclamam que uma coisa está ruim, mas, quando aparece uma solução, reclamam também. Se você sofre, mas não morre, não pode ser. Isso é ser alienado. A figura do otimista é constantemente minimizada, como se o otimista fosse um anestesiado pela ilusão da felicidade. É importante ter consciência de que o sofrimento é inevitável e a vida é duríssima, agravante para quem vive na dita Cidade Maravilhosa. Mas, em vez de nos entregarmos à infelicidade, respiremos fundo para entender por que nos encontramos nesse meio. Segundo o budismo, grande parte da dor é criada por nós mesmos, por nossa incapacidade de lidar com a tristeza. Ao encararmos e identificarmos as causas reais do sofrimento, refletimos e melhoramos o autoconhecimento.

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