Por bferreira

Rio - Hoje vou pedir licença para falar de uma história pessoal. A história de um grande encontro. Um encontro singelo e afetivo que acontece em meio a este turbulento e violento dia a dia que estamos levando nas grandes cidades. Neste tempo em que o ódio parece estar ganhando do afeto e em que o dinheiro permeia as reações e rancores, mulheres e homens comuns se encontram num restaurante do Rio para confraternizar ou, até, se conhecer. “Todo mundo faz isto”, dirão os mais ácidos. “Grande coisa”, dirão os mais amargos.

Mas, como não tenho compromisso com a amargura nem com a acidez e ainda acredito no afeto, eu me aproveito do encontro para acreditar que o ser humano ainda é humano. Por conta disto, decidi compartilhar não só as fotos no Face, mas também o relato. O encontro começou há sete anos e atende por ‘Orkontrão do Sem Censura’. São telespectadoras, capitaneadas por uma delicada pessoa chamada Ciça, que chegam de várias partes do país, para passar um sábado conhecendo ou revendo gente que também vê o programa. Formaram grupo no velho Orkut e agora se deliciam com o Facebook. O interessante é que o ponto de partida desta amizade começou pela tevê. Eu, do lado de lá da telinha, e elas e eles do lado de cá. A princípio, para mim, eram apenas nomes: Sandra de Guarulhos, Thereza de Ribeirão Pires, Mercês de BH, Doris e Rejane de Porto Alegre, Vanda, Heleny e Carmen do Rio, Rafael de Brasília e Ana de Curitiba, dentre muitas outras ‘companheiras de trabalho’, como brinco, parodiando Silvio Santos.

Começaram participando do programa mandando faxes e mensagens. Com o tempo passaram a mandar e-mails, e já que agora nos conhecemos, contamos um pouco da vida umas pras outras, como velhas amigas de infância, neste encontro anual. Foi uma decisão feliz de minha parte aceitar o convite para conhecê-las. E tem sido um prazer. No restaurante somos um grupo barulhento, trocamos presentes, fazemos sorteio e rimos felizes. Claro, fazemos muitas fotos. Como qualquer família. É um encontro espontâneo, sem patrocínios, sem interesses, cada um pagando sua despesa do tamanho do seu bolso. O que me comove nisto tudo, além do carinho naturalmente, é que provamos que as muitas diferenças sociais, étnicas e de idade não valem nada quando a gente permite se conhecer, quando a afinidade existe e quando, nem que seja por uma tarde, nos esquecemos das facadas, dos assaltos, das dificuldades do cotidiano e dos ódios de classes tão alimentados nestes tempos que vivemos.

Vejo este encontro também como uma prova de que somos capazes de resistir a este desamor que parece dominar o cotidiano. Não deixa de ser uma atitude de resistência ao medo do outro e ao fechamento dos nossos corações ao novo e à amizade. A barbárie que vemos e vivemos à nossa volta não pode comprometer a nossa capacidade de amar. Prova de que o ser humano pode resistir e continuar tendo o sonho de mudar o mundo. Nem que seja só o nosso mundo.

E-mail: [email protected]

Você pode gostar