Moacyr Luz: O grande circo humano

Até túnicas indianas florais, vesti. Hoje, tenho pesquisado sobre armaduras das cruzadas inglesas

Por O Dia

Rio - A essa altura, e que altura, estou cruzando o Atlântico, braços abertos sobre a Guanabara. Não sei a quantas anda a lei já aprovada no meu Senado pessoal de, quando o perímetro aéreo pertencer ao Rio de Janeiro, só ouvir ‘Samba do Avião’ e na voz do maestro Tom Jobim. Preciso urgentemente desses acordes pra tirar de vez a sensação de estar pousando de mãos atadas à mercê do arremessador de facas, no caso, um amador com ares de ceifador, a nova estrela desse circo dos horrores. No ponto de ônibus, enquanto aceno pro globo da morte nas vias cariocas, assisto à lâmina sob a manga do paletó, saltando do nada, feito um coelho na cartola. Um ‘ás’ de pontas no esmeril. Há leões pra todo lado.

O cérebro, feito um Google Maps, aponta com pingos vermelhos as esquinas por onde andei: “Cuidado! Armas brancas na pista.” Virou moda. Já inverti a sola das havaianas, pisei com tamancos e sapato cavalo de aço. Usei bolsa de couro cru, faixa nos cabelos e calça pantalona. Até aquelas túnicas indianas com motivos florais, vesti. Hoje, tenho pesquisado sobre armaduras das cruzadas inglesas, couraças e cotas de malha, um verdadeiro ‘coração valente’. O design funileiro apresenta um agasalho feito com os ‘anéis’ que abrem as latinhas de bebidas, as sardinhas ao molho e tantos patês industrializados. Ideal para caminhadas em parques e lagoas.

Diz a lenda que um diretor de picadeiro, mostrando desinteresse por um artista que imitava passarinhos, abriu a porta como despedida sem notar que o gaiato já voava em direção à janela, fazendo pose no mastro principal. São tempos de homem-bala e engolidor de espada. A cobra vai fumar.

A mesma calçada que à primeira gota de chuva é invadida por uma centena de baratas sombrinhas chinesas, agora parece alimentada por camelôs de guerrilha oferecendo estoques, serras e afins perfurantes. Enquanto o circo não pega fogo, ardem os coletivos nas escuras ruas do subúrbio. Pneus queimam lembrando os aros incendiados no número dos tigres. Mal sabe o domador que ele está prestes a ser devorado.

Desce o trem de pouso, aumenta a adrenalina. Linha Vermelha, Binário fora de via, Avenida Passos, descompassada.Acontece que esta é a cidade do meu suor, da velha guarda, sim, senhor. Dos botequins mais vagabundos, onde o bêbado e a equilibrista dividem meia porção de ilusão e ainda guardam um mordida pro trapezista descalço numa vida sem rede de proteção. Recebo notícias do malabarista. Os marimbondos lhe picaram a face, mas as laranjas continuam em suas mãos.

E-mail: moaluz@ig.com.br

Últimas de _legado_Opinião