Por adriano.araujo

Rio - O sociólogo espanhol Manuel Castells, em uma recente palestra em Salvador, analisou a crise dos sistemas tradicionais de democracia representativa por conta da corrupção, agora mais exposta, porque as pessoas têm mais acesso à informação e capacidade de organização graças à internet. Segundo ele, a sociedade se expressa em movimentos espontâneos, estimulados pela mídia social. O debate nos meios digitais é um desafio para os governos que não estão acostumados a dialogar em ambientes não controlados. Ninguém quer mais o monólogo. A internet é uma tecnologia de liberdade e, certamente, contribuirá para mudanças históricas.

As opções que os Estados ou os partidos nos impõem ou propõem não estão à altura da crise e não podem resolvê-la. Torna-se cada vez mais intolerável que as vidas dos cidadãos sejam decididas por outros e não por eles mesmos. Essa indignação permite que se amplie a temática do movimento: Mensalão, Petrolão, Lava Jato, temas em que a palavra ‘dignidade’ se ausentou. Um protesto pela dignidade também inclui a luta contra a pobreza, a desigualdade e a injustiça.

Não conseguimos, até hoje, fazer emergir um novo projeto civilizatório. Fracassamos no esforço de se refazer o tecido social, preencher a distância entre indivíduos atomizados e o Estado, onde só existem relações verticais de hierarquia e interesses de grupos poderosos instalados no poder. Refazer o tecido social é criar, a partir de iniciativas de base e em todos os níveis da economia, da política, da Educação e da cultura, comunidades responsáveis que se encarreguem da própria vida, para redefinir as finalidades humanas de cada atividade social e seus métodos de organização e de gestão. Queremos que a história de todos seja feita por todos e não imposta por alguns.

É preciso mudar radicalmente os princípios e as estruturas. Se respeitamos realmente os direitos democráticos, devemos aceitar que são os povos os que elegem as formas democráticas em que querem viver. Podemos, desde agora, começar a destruir a lógica do sistema que nos reduz à impotência. O primeiro passo é criar juntos essas comunidades de trabalho, de hábitos éticos e de responsabilidade.

?Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor

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