Por adriano.araujo

Rio - Os que golpeiam panelas contra a corrupção e em protesto ao governo deveriam ter feito o mesmo, e com mais veemência, diante da sessão de quarta-feira na Câmara que aprovou o financiamento empresarial de campanha. E há duas fortes razões para tal. A primeira é o modo como se deu a votação — algo clandestino, um tanto afoito, resultado da persistência mimada da Mesa Diretora em aprovar a fórceps um projeto de total interesse de seus integrantes. A segunda razão é o controverso teor da lei aprovada, ressuscitando práticas que permitiram as maiores atrocidades na história recente da República.

Como bem define Frei Betto em seu artigo na página 2 desta edição, há uma linha tênue que separa a doação do investimento. A julgar pela avalanche de malfeitos nos últimos anos, predomina o segundo: os milhões gastos na campanha serão cobrados durante o mandato do agraciado — e há diversas formas de fazê-lo. Estratagemas, negociatas, desvios e comissões têm o alcance da criatividade dos interessados em lucrar no cargo público, como têm mostrado as investigações do Petrolão.

O intrigante nesse episódio é ver que a oposição, que tanto instigou seus correligionários e simpatizantes a bater panelas — sem ao menos ouvir o que o outro lado tinha a dizer —, votou em bloco pelo financiamento de campanha. Como sustentar ser diferente, se todos atropelaram o regimento e o bom senso para manter um benefício suspeito?

Não tem fim de reeleição, voto distrital, mandato de cinco anos, cláusula de barreira ou qualquer outro ensejo de reforma política que dê jeito no país enquanto se triplica o Fundo Partidário e se garante o investimento privado nos agentes públicos.

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