Por bferreira

Rio - No prato ao lado, picanha, salada de manga e um pouquinho de risoto. Era um quilo desses metidos a chique e a mulher estava toda feliz comendo. O neto criticou, listando o que tinha no prato (foi aí que eu, da mesa ao lado, ouvi). A senhora começou a balbuciar sua defesa e eu me meti, sorrindo: “O que é do gosto regalo da vida”. Ela sorriu de volta: “Minha avó que falava isso, e eu sempre falei para as minhas filhas”.

Como ditados se encaixam bem em todas as situações! Sempre os uso e fiquei orgulhosa quando, no belo filme ‘O fabuloso destino de Amélie Poulain’, a personagem diz que falar ditados é sinal de que a pessoa teve uma boa família. Não me lembro a frase exata da história, mas a essência é essa. E não esqueço dessa passagem porque a identificação foi imediata. Pude ali valorizar o que me foi passado por minha mãe. Fui me dar conta, anos depois, que isso acabou enraizado em mim, isso que a mamãe passou, de aplicar o ditado certo para cada ocasião.

Quando meu filho nasceu, senti uma enorme falta da minha mãe, que já tinha morrido. Em licença da terapia, num telefonema, ouvi da analista: “Toda mãe quer mãe. Não se preocupe, você saberá o que fazer. Os valores, tudo o que a sua mãe ensinou, já está inserido na sua formação, e você saberá por instinto”. Achei tão bonito. Não tive mais muitas dúvidas. Em vários momentos, um ‘feeling’ determina como devemos agir. Esse ‘feeling’, esse sentimento que nos inspira, está lá gravado no nosso disco rígido. Na ‘nuvem’. Tem um backup de experiências vividas na nossa alma. E a gente resgata nas mais diferentes situações.

“O que é do gosto regalo da vida”. Isto é: a rotina, de repente, oferece-nos um mimo, um presente, uma dádiva. É quase uma poesia. Estamos lá, no estupor do dia a dia, e de repente sentimos um prazer inesperado que nos chama para o estado de consciência, um súbito bem-estar. Por comer uma salada de manga e combiná-la com picanha, que seja. E ninguém tem nada com isso. Associei essa história a uma leve depressão, sentindo falta de um luxo imaginário. Acordar e ter a mesa pronta, como em grandes hotéis, comida quentinha e deliciosa, sem que você precise se mexer, nem lavar a louça depois. Você não precisa nem tirar a semente do seu próprio mamão. Que bobagem, depois me repreendi: sonhando acordada com um mamão sem semente? Vão achar isso uma grande besteira! Mas não é. É como provar uma fruta e saborear um caldo bom, morder um queijo quente, tomar banho pelando no frio. Se você gosta... vai em frente!

E-mail: karlaprado@odia.com.br

Você pode gostar