Jaguar: Moacir 100 anos

Moacir de Castro, o exemplo de estilo mais enxuto e elegante do jornalismo brasileiro

Por O Dia

Rio - Sou mais traído pela memória que os eleitores pelos políticos. Mas, para minha surpresa, lembrei o nome do bar onde a gente se reunia há mais de 30 anos: Dirty Dick. Ficava na Rua São Bento 9; o dono era um ex-marinheiro sueco. Com paredes de mogno, servia cerveja escandinava e inenarráveis sanduíches de salmão.

Na nossa mesa só tinha profissa: Vinicius, Sérgio Porto, Pompeu de Souza, e, é claro, Moacir Werneck de Castro (1915-2015), turma da pesada. Tínhamos várias coisas em comum: descendemos de viscondes; ele, de Arcozelo, eu, de Jaguaribe. Não que me gabe disso: títulos de nobreza eram distribuídos com o mesmo critério (escuso) de cargos nas estatais. Foi Moacir que, quando chefiava a redação d’‘A Última Hora’, de Samuel Wainer, me convidou para ser chargista. Trabalhei lá até que um bando de oficiais da Marinha empastelou, ao estilo fascista, a redação na Sotero dos Reis. Incitados por Carlos Lacerda, ídolo da Direita. Meus pais eram lacerdistas fanáticos; todas as vezes que ia beber um uisquinho com mamãe, dava de cara, na parede da sala, com o Corvo do Lavradio, apelido bolado pelo Lan. Ele fazia a melhor caricatura do Lacerda, um corvo com óculos fundo de garrafa. O ódio do Moacir era muito maior que o meu porque eram primos-irmãos, estudaram juntos na Faculdade de Direito de atual UFRJ. Participaram do movimento socialista e trabalharam, em 1938, no jornal ‘Diretrizes’ (também do Wainer).

Os dois se filiaram ao Partido Comunista, mas discordaram politicamente e viraram inimigos depois que Lacerda guinou para a Direita. Moacir foi, com Jorge Amado e Oscar Niemeyer, um dos fundadores do PCB. Desligou-se em 56 quando, no 20º Congresso em Moscou, foram denunciadas as atrocidades de Stalin. Admirável jornalista e escritor. Na minha opinião, seu estilo foi o mais enxuto e elegante do jornalismo brasileiro. Traduziu, dos originais, García Márquez, Dostoiésvski, Huxley e Zola. A diferença de idade nunca atrapalhou nosso papo: quando, aos 19, foi preso pela primeira vez, em 1934, eu tinha 2. Mais uma coisa em comum (e incomum): tivemos a sorte de nos casar com mulheres notáveis, antenadas, inteligentes e grandes companheiras, até no copo. Bem, podiam ser um pouco menos mandonas... Nenê e Moacir namoraram cinco décadas, Célia me atura há 25 anos. Otto Lara Rezende o resume: “Um exemplo eloquente e completo do que tem sido o intelectual brasileiro de sua geração.”

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