Por bferreira

Rio - Geralmente utilizamos o termo ‘promíscuo’ como um adjetivo desqualificante, como uma censura àqueles que se comportam de forma contrária ao que é estabelecido como moralmente adequado. Sendo professor e historiador de formação, tenho certa experiência na docência e pesquisa no campo da ciência histórica. O princípio básico dessa atividade científica é a ideia de que a escrita é o resultado de um procedimento científico, segundo o qual o historiador, a partir da análise dos vestígios deixados pelos homens do passado, elabora uma narrativa em prosa, que é pretensamente realista.

Sou, portanto, um historiador promíscuo, que não se faz de rogado em admitir os vícios mais grotescos, e comuns, do comportamento masculino moderno. A minha promiscuidade é narrativa, encontra-se na mistura entre um tipo de discurso destinado a representar cientificamente a realidade. Não estou sendo nada original em transitar de forma tão desrespeitosa, tão promíscua, entre as fronteiras que distinguem os dois gêneros. Muito pelo contrário, estou me colocando em uma tradição que, no limite, nos remete à antiguidade ocidental.

Desde Aristóteles que o tema das relações entre as prosas realista e ficcional atrai a atenção de filósofos, críticos literários e historiadores. O filósofo grego, no tratado da ‘Poética’, estabeleceu fronteiras nítidas entre a história e a literatura, dizendo ser o texto ficcional “mais sério que a história”, na medida em que “diz respeito ao geral”, enquanto a história o faz “ao particular”.

No início do século 20, o ficcionista norte-americano Henri James, na esteira da herança aristotélica, também definiu a prosa literária como forma de representar a realidade. Para o autor, a ficção pode ser pensada como uma casa com um milhão de janelas, sendo que cada uma “foi aberta, ou ainda pode ser aberta, em sua vasta fachada pela necessidade da visão individual e pela pressão da vontade individual”. O ficcionista não seria aquele que tão-somente fantasia, mas sim que inventa, na narrativa, um mundo que de alguma forma é o que vivemos.

Rodrigo Perez é professor e autor de ‘As memórias de um homem comum’

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