Por bferreira

Rio - Semana passada, autoridades policiais revelaram na TV detalhes preciosos sobre processos investigativos e táticas que poderiam fazer a alegria de criminosos atentos. Ao mostrar como a criminalidade carioca se desloca e se esconde em áreas de mata, a TV exibiu imagens de câmeras térmicas de nossos mais modernos helicópteros policiais, demonstrando claramente a nossa capacidade de monitoramento de imagem noturna de longa distância. Os bandidos do Rio, pelo menos os inteligentes, devem estar agradecendo as dicas de tática que receberam a custo zero.

As reportagens eram sobre traficantes que se deslocavam pelo alto dos morros e sobre um estuprador preso por bela policial que se apresentou numa rede social sob nome falso. A título de serviço ou de satisfação à opinião que clama por segurança, essas matérias viraram um atentado contra o trabalho de inteligência policial. Fiquei me perguntando como autoridades puderam concorrer para tamanho desserviço. Como a própria polícia cedeu essas imagens, que bem retratam sua capacidade de vigilância para uma matéria tão ilustrativa? Seria para infundir temor nos traficantes? Se este for o objetivo, a ingenuidade dos agentes só não é maior do que o prejuízo que o equívoco pode causar.

Estabelecer um laço de comunicação entre as forças de segurança e os cidadãos não pressupõe desnudar processos. Exibir minúcias sobre recursos tecnológicos é um tiro no pé! Precisamos mesmo esclarecer os nossos bandidos mais do que eles já ‘aprendem’ nos games, na internet, nas publicações técnicas e nos treinamentos que eles desfrutam, ministrados por maus militares e maus policiais? Já temos problemas de mais, violência de mais, criminosos de mais, mortos de mais, sem que precisemos, nós próprios, aperfeiçoar nossos bandidos.

O direito de informar não pode ser exercido com irresponsabilidade, e a vaidade de aparecer bem na TV não pode comprometer o êxito de futuras operações. Do contrário, teremos de fracionar esse sacrossanto ‘direito à informação’ e o enfiar nos inúmeros buraquinhos dos tiros irresponsáveis dos bandidos fortemente armados, cuja liberdade de ação estaremos perpetuando com matérias como essas.

Vinícius Cavalcante é dir. reg. da Assoc. Bras. de Profissionais de Segurança

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