Editorial: Cadeia do crime dentro da cadeia

Debate da redução da maioridade penal ficará perigosamente incompleto se excluir a reforma dos presídios

Por O Dia

Rio - O sistema penitenciário no qual se pretende entulhar adolescentes infratores é o mesmo onde grassa liberdade para fazer girar enormes — e letais — engrenagens do crime. Como O DIA mostrou ontem, apesar de encarcerados em presídios federais, chefões do tráfico têm informações sobre seus negócios em tempo real e, com a mesma rapidez, dão ordens a seus asseclas. Na terça-feira, a polícia cumpriu 26 mandados de prisão de pessoas acusadas de participar dessa cadeia. Fica a pergunta: adianta prender?

Acreditava-se que cadeias federais fossem exceção ao que se observa nas demais. Ainda que não apresentem a insalubridade vista em muitas outras — como superlotação extrema, imundície generalizada e conflagração permanente —, mostraram-se incapazes de cumprir o seu papel mais básico: isolar o criminoso da sociedade e privá-lo de cometer mais delitos. Cuidar de sua reabilitação e capacitá-lo para o futuro já é um luxo cada vez mais raro.

E aí vêm questões menores, mas não menos importantes, como a peneira por onde passam celulares, carregadores, armas, drogas e regalias. De novo, perde-se o foco da discussão: há quem insista na medieval e estúpida revista íntima quando há meios mais modernos e mais civilizados para garantir a inviolabilidade das penitenciárias.

É por essas razões que o debate da redução da maioridade penal — em marcha acelerada num Congresso movido pela Lei de Talião — ficará perigosamente incompleto se excluir a reforma dos presídios. Um trabalho imenso e difícil, que envolve adaptações do Código Penal e muitos ajustes nos procedimentos do Judiciário. Mas, pelo andar da carruagem dos parlamentares, o urgente é encarcerar. Não importa onde ou como. E assim se perpetua a máxima de que cadeia é o escritório do crime.

Últimas de _legado_Opinião