Por bferreira

Rio - Duas votações importantes tramitam no Congresso: uma sobre redução da maioridade penal, outra sobre terceirização. Aparentemente, duas matérias sem relação entre si. Mas é nesta aparência de assuntos distintos que devemos entender que, no sistema capitalista, as coisas têm conexão. Como em um sistema elétrico, em que a corrente é produzida por partes conectadas que formam um todo, é preciso ler em uma totalidade situações na vida que parecem isoladas e momentâneas. Tal como sugere um slogan de eletrônicos: “Compartilhar momentos é compartilhar a vida.”

Recentemente, o ministro da Justiça afirmou que os presídios no Brasil são “escolas de criminosos”. No mesmo dia, o secretário de segurança do Rio disse que eram como “assembleias de criminosos”. Dizer que os presídios são “escolas” pode significar só que neles se aprende, mas pode sugerir também que aprender é crime. Dizer que são “assembleias” pode indicar que presos tomam decisões coletivas para ações organizadas, mas pode também sugerir que quem faz o mesmo é criminoso. Não à toa, vemos hoje professores espancados pela polícia e rodoviários, em greve, criminalizados por participar de assembleias, “atrasando o serviço”.

Como podemos ver o todo por trás dessas partes? Retirar direitos dos trabalhadores, expandindo as terceirizações para setores como Educação, precariza ainda mais as condições de trabalho dos profissionais do ensino e compromete seus esforços em compartilhar novos valores com os jovens — alvo da redução da maioridade penal. Jovens desalentados com um mundo que prega que a capacidade individual é o único caminho para superação de problemas sistêmicos, que formas coletivas de solucionar os apagões da vida, por meio de grêmios, sindicatos e assembleias, são coisas de delinquentes.

Defender a redução da maioridade penal é tratar de forma compartimentada um problema que se agrava com a perda de direitos trabalhistas. E aqueles que tanto defendem que a Educação é a solução para os problemas do Brasil deveriam parar de insistir que é possível compartilhar momentos, sem compartilhar a vida, tratando as coisas como partes desconectadas.

Assim, poderemos também nos enxergar neste todo e notar que percebermos as coisas de modo desconectado também faz parte do sistema. Que mesmo os apagões são produtos dele e que só assim entendido podemos produzir curtos-circuitos, conectando partes que não podem ser conectadas.

Clarisse Gurgel é cientista político e professora da Unirio

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