Ruy Chaves: A Ética e o Poder

Temendo a omissão do homem bom e a corrupção, Sócrates disse há 2.450 anos ser indecoroso pleitear o poder

Por O Dia

Rio - Ética de princípios, justiça como valor supremo, fundamento de toda ação, homens justos e sábios: socráticos. Ética de resultados, justiça como circunstância, ser justo apenas quando a ação traz vantagem pessoal, parecer justo, o injusto perfeito: sofistas.

Temendo a omissão do homem bom e a corrupção, Sócrates disse há 2.450 anos ser indecoroso pleitear o poder. Os bons não querem governar por dinheiro ou honra, não são ambiciosos. Devem ser induzidos a governar e até coagidos pelo temor de castigo. Em uma cidade formada apenas por homens justos e sábios, haveria luta para não governar, como sempre há para governar. Para os sofistas, os justos viviam coroados e bêbedos, em eterno banquete, como se a embriaguez fosse a melhor recompensa para a virtude.

Desejando a unidade italiana, Maquiavel, em 1513, escreveu ‘De Principatibus’, numa Itália espoliada, dividida por três grandes forças: príncipes, Igreja e mercenários. O príncipe perfeito, capaz de conquistar e manter a unidade italiana, teria a força do leão e a astúcia da raposa e criaria um Estado aético comprometido com a eficiência. Toda ação destinada ao bem maior, a unidade italiana, seria legítima. Apenas neste sentido os fins justificariam os meios.

Para Hobbes, em ‘O Leviatã’, de 1651, há no homem um desejo perpétuo e contínuo pelo poder que só cessa com a morte — e o homem é o lobo do homem. Montesquieu, em 1748, opôs-se a toda forma de despotismo: o poder corrompe. É preciso que, pela disposição das coisas, o poder limite o poder. Em ‘O Espírito das Leis’, Montesquieu estruturou teorias sobre Tripartição e sobre Freios e Contrapesos, pilares do Estado Democrático de Direito.

No século 21, em muitas democracias o poder não limita o poder, governar não é remediar os males alheios e a ética não é essência do poder. Poder, corrupção e o injusto perfeito em sua sombra protetora. Sócrates, perseguindo a Ideia do Bem, identificou virtudes humanas de que os sofistas conheciam apenas sombras. Quando os homens bons e justos se confortam em suas virtudes, disso se aproveitam leões e raposas humanas. Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

Últimas de _legado_Opinião