Sandra Bozza: Errar é humano

Se crianças não são coibidas de errar, desenvolvem mais confiança em si e lidam com o erro como algo natural na vida

Por O Dia

Rio - Dito popular de sucesso vaticina que “é errando que se aprende”. Ao aprendermos, às vezes erramos, pois não é um processo linear e cumulativo. Embora todo conhecimento adquirido sirva de base referencial para a apropriação de novos conhecimentos, isso não ocorre como um acúmulo de material depositado sobre outros já compactados no nosso cérebro.

Muitos creem que se aprende treinando e repetindo um determinado modelo. Não é essa a minha concepção de aprendizagem e, justamente por isso, o erro tem importância no momento em que se aprende. Reside aqui a notoriedade da afirmação polêmica de que as borrachas são um erro. Quero crer que nem as borrachas devem ir para as fogueiras, nem a tecla DEL deve ser retirada dos computadores.

A proposta de Guy Claxton, ao sugerir que as borrachas deveriam ser banidas de todas as escolas, refere-se a algo mais profundo do que assumir erros perante a sociedade. A questão está atrelada ao processo de desenvolvimento humano em que se aprende utilizando os conhecimentos a serem ensinados e, portanto, o percurso percorrido pelo aluno (inclusive os erros) pode ser importante para que o professor interfira com mais eficácia para alavancar o que é necessário no estágio em que a criança se encontra.

Um exemplo que pode ilustrar isso é quando crianças, na Educação Infantil ou no primeiro ano, escrevem algo para alguém que é perfeitamente entendível, mas num texto com vários erros ortográficos e palavras sem o espaçamento convencional. O caráter dos equívocos ortográficos revela em que estágio essa criança se encontra, e as emendas de palavras ou expressões mostram que ela já compreendeu que a escrita é a representação; todavia, necessita aprender que não é uma representação direta e que tem normas próprias.

Se crianças que aprendem nessa perspectiva não são coibidas de errar, elas desenvolvem mais confiança em si e lidam com o erro como algo natural na vida e na escola. Quanto mais perceberem que os erros apontam caminhos para que haja mediações adequadas para seu desenvolvimento, mais saudáveis serão psicologicamente e se apropriarão de novos conhecimentos de modo cada vez mais competente e sofisticado, pois não temerão represália por errar.

Sandra Bozza é mestre em Ciências da Educação

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