Fernando Molica: O verdadeiro sobrenome

Jornalistas se apresentam assim, mesmo na praia. ‘Sou o Fulano, do Dia’; ‘Esse aqui é o Beltrano, da Folha’

Por O Dia

Rio - ‘Você já viu coisa mais triste e chata do que velho jornalista? O médico, ainda que velhinho, continua sendo médico. Lembra do Rinaldo De Lamare, o pediatra que escreveu aquele livro sobre bebês? Ele morreu com mais de 90 anos. Certamente não tinha mais consultório. Mas sou capaz de jurar que ele continuava dando umas consultas, aqui e ali. Nem que fosse para o bisneto, para o filho do porteiro, para a neta da empregada. Duvido que ele tenha ficado uma semana sem fazer uma recomendação, passar uma receita. Isso, com mais de 90 anos. Quem é médico é médico a vida inteira. Isso vale pro advogado, pro engenheiro, pro arquiteto. Não vê o Niemeyer? E jornalista? Jornalista só é jornalista enquanto trabalha em jornal. Depois, vira um ex-jornalista. Melhor: um jornalista sem-jornal, apenas um chato.

Jornalista só é jornalista quando está num jornal, numa revista. Você acha que meu sobrenome é Menezes, não acha? Errou. Meu sobrenome é Diário. Meu nome todo é Ricardo Luiz Menezes do Diário. Ou, na forma mais simples, Ricardo Menezes do Diário. É assim que eu me apresento, com meu nome profissional, meu verdadeiro nome de casado. Já fui Ricardo Menezes do JB, Ricardo Menezes do Globo. Agora, sou do Diário. Você tá rindo? Acha que é sacanagem? Amigo, jornalistas se apresentam assim, mesmo na praia. ‘Sou o Fulano, do Dia’; ‘Esse aqui é o Beltrano, da Folha’. Neguinho faz isso até ao ser apresentado para quem não é jornalista. Imagina um médico falando assim: ‘Sou o Dr. Souza, do Miguel Couto’, ‘Sou a Dra. Janaína, do Albert Schweitzer’. Isso é uma maluquice, desvio psiquiátrico.

Na prática, quando a gente faz isso, tá dizendo que só é alguém porque está num jornal. Igual às mulheres que antigamente se apresentavam com o nome do marido: ‘Sou a Sra. João Carlos Cardoso de Azevedo’. Mas, quer saber?A gente tá certo. Jornalista só é jornalista se estiver casado com um jornal. Nenhuma autoridade iria perder tempo com um Menezes, com um Reis, um Almeida, um Fraga, um Queiroz qualquer se depois destes nomes não tivesse um nome maior, mais importante, imponente, ameaçador. O nome, claro, de um jornal. Acredite, meu caro, é assim. Então, aos 50 anos eu tenho que me preparar para o dia do grande divórcio, o dia em que voltarei a ser Menezes. Talvez seja bom, uma outra libertação, mas talvez seja uma merda ficar mudo quando a secretária do outro lado da linha perguntar: ‘Ricardo Menezes de onde?’ .”

Trecho do romance ‘ O ponto da partida’, Editora Record.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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