Editorial: País ainda é vulnerável a doenças anacrônicas

Preocupam a quantidade de lares que ainda dependem de fossa séptica e o imenso volume de afluentes despejados em rios e lagoas

Por O Dia

Rio - Doenças transmitidas por água contaminada não deveriam preocupar tanto os brasileiros. Mas, num país onde quatro em cada dez residências ainda não têm qualquer tratamento de esgoto, como atesta o IBGE, todo cuidado é pouco. A cautela se justifica, dentre outras questões de saúde pública, pela chegada do gemycircularvírus, como O DIA mostrou nesta segunda-feira. Trata-se de um similar do rotavírus que, além das diarreias e febres de praxe, é capaz de imobilizar o paciente, tirando-lhe o sustento das pernas, podendo levá-lo à morte em casos extremos.

Por ser uma doença relativamente nova, evidentemente não há vacina. Cientistas da Fiocruz alertam para a possibilidade de o vírus, inicialmente identificado em Manaus, ter se alastrado pelo território nacional. Não seria surpresa se esse mal seguir os rastros do transmitido pelo Aedes aegypti, que ora faz estragos no Estado de São Paulo.

É verdade que o saneamento básico avançou bastante no país. O próprio IBGE registrou leve melhora comparando as Pnads de 2012 e 2013. Preocupam, no entanto, a quantidade de lares que ainda dependem de fossa séptica e o imenso volume de afluentes despejados em rios e lagoas.

E não é preciso ir muito longe para testemunhar essa precariedade. Japeri, município da Região Metropolitana do Rio tema de série de reportagens do DIA, tinha índices de esgotamento piores que a média nacional (na cidade da Baixada está em 44%, contra 41% do Brasil). E estar ligado a alguma rede não era garantia de tratamento, já que boa parte dos dejetos caía em cursos hídricos.

São muitas as desigualdades no país, e algumas situações são de anacronismo puro. Natural, portanto, que ‘doenças da pobreza’ saiam da condição de surto e alcancem a de epidemias. Como não se resolve saneamento da noite para o dia nem se descobre uma vacina em igual período, resta à população e às autoridades se preparar para o pior — reforçando prontos-socorros e cuidando para não haver transmissão desmedida. Em pleno século 21.

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