Marcos Mello: Setenta reais, tanto de vida

Quantos de nós, a cada injustiça, decepção e covardia, não morrem um bocado? Qual, dentre muitos, nunca sorriu diferente?

Por O Dia

Rio - 'Da vez primeira em que me assassinaram / Perdi um jeito de sorrir que eu tinha. / Depois, a cada vez que me mataram, / Foram levando qualquer coisa minha’, Mário Quintana, poeta gaúcho (1906-1994).

Quantos de nós, a cada injustiça, decepção e covardia, não morrem um bocado? Qual, dentre muitos, nunca sorriu diferente? Quem, somando toda a gente, de perder partes, não virou sobra? O desviver inicia feito trem japonês, ato contínuo ao choro inaugural. Embora uns não desvivam, já que a marcha do tempo é para o tipo a passar pela vida, contrariamente daquele cuja morte liberta, assim, desvive de trás pra frente, mais próximo à morte, mais vivo. Porque sofrimento ilimitado descombina com viver e tantos a desconhecer a jornada sem padecer e só padecer, gente sem gente dentro até no sonhar.

A busca de todo dia, de quando em quando, é à toa: pôr à mesa uma sobrinha enganando o apetite dos barrigudinhos. Outros, entretanto, mesmo com a pança farta de iguarias, enfrentam a noite feito guerra perdida. Por conseguinte, compadecem-se com as injustiças dos que vieram ao mundo no CEP errado. Não raro, dado às peculiaridades de nossa cidade, vizinhos. Os primeiros, dependurados em morredouros de pobres, a esconder os pequeninos das traçantes em dias só no chamar, haja vista tornarem-se noites sem fim, madrugadas de pôr termo a sanidade e inocentes; os segundos, a rezar na cobertura, rogando proteção para os miúdos colorindo a vizinhança mais suas pipas.

Vira o século, a tecnologia desmonta a realidade, a expectativa de vida aumenta, bem aumentada, a ficção científica leva um baile, e ainda convivemos com desigualdades medievais. Os 0,21% mais ricos detêm 40,81% da riqueza dos brasileiros, enquanto os 50% mais pobres ficam com 2% . Uns com a consciência envergonhada diante a concentração de renda, e muitos cobrando os setenta reais que mitigam a fome do pobre, na contrapartida do filho na escola. Setenta reais e um pescoço de frango, setenta reais e frasco de antibiótico, setenta reais e uns graminhas de peso, setenta reais e um tantinho de vida, setenta reais!

?Marcos Mello é sociólogo

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