Por bferreira

Rio - O trânsito está lento na saída do Túnel Rebouças, sentido Lagoa. Na verdade, muitos carros naquele nó de acessos a Copacabana, Humaitá e arredores. Reparo, em frente, uma grande aglomeração com pessoas vestidas de branco. Época de justas manifestações contra o preconceito racial, redução da maioridade penal e a intolerância religiosa, peço ao motorista que contorne a Epitácio Pessoa pra eu entender melhor a situação. Nem precisou torcer o volante, identifiquei a tempo a ocorrência: “Eram babás e seus uniformes, quarando os bebês no brando sol das manhãs cariocas”.

No mínimo, curioso. Os jornais falam de mandioca e eu retrocedo aos cafezais e seus escravos, a Isaura, o Zumbi das embrenhadas matas brasileiras. Na famosa tela de Portinari, ‘Café’, figuras humanas ensacam e carregam o grão numa colheita primária. Pintados com os pés enormes, são camponeses sem salários.

Na Lapa, Arcos em constante restauração. Cal e umidade na mesma balança, um turista dispara flashes em direção ao grande “adro” do monumento. Percebo a direção do foco, as mãos ajeitando a lente, o corpo curvado. Cenário: moradores de rua esperando a sopa do dia. O aqueduto, carente do bondinho em sua crista, é um cartão postal de cabeça pra baixo.

Eu e crônica seguimos pela 24 de Maio, cruzando o Meier da minha juventude, no fluxo pra Oswaldo Cruz, aonde somos aguardados para uma coletiva sobre o Samba In Rio, projeto maravilhoso envolvendo sambistas de várias gerações em torno do mesmo palco, a Sapucaí. Encontro Martinho da Vila, genial, genial, genial. Martinho ocupou esse mesmo espaço por dois anos. Colunista inspirado, ele recorda a angústia desse compromisso. Concordo. Vim pelo caminho procurando conversa. A gare do Engenho de

Dentro, o coreto em Quintino, bairro do ídolo Zico, o casario suburbano pichado por inocentes canalhas, o vaivém de Madureira. Acontece que a Lagoa não me sai da cabeça. As mulheres de branco. O branco, recuando dois dias pro ‘réveillon’ na Praia de Copacabana.

Detalhes que a uma vida não bastaria pra ver costurado.

Dou parabéns a Seu Ferreira, o último arauto de Vila Isabel, pelo recente disco ‘Enredo’.

São sambas de sua autoria, contei 15 no disco, traduzindo o amor pelo brasão branco e azul. Refletindo sobre o repertório, relembro de ‘Sonho de um Sonho’, que ele compôs com Rodolpho e Tião Graúna, versos que me representam:

Sonhei que estava sonhando

um sonho sonhado o sonho de um sonho magnetizado. 

As mentes abertas, sem bicos calados, 

Juventude alerta, os seres alados.

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