Por felipe.martins

Rio - Aos 49 anos, o francês Laurent Sourisseau, o Riss, não consegue levantar o braço direito, é provável que nunca mais tenha condições de fazer o gesto. Culpa da bala que, em janeiro, atravessou seu ombro e que, por poucos milímetros, não paralisa de vez o braço, o que acabaria com sua carreira de cartunista. Sobrevivente do ataque de terroristas islâmicos ao ‘Charlie Hebdo’, ele, por conta da morte de tantos colegas, herdou a direção do jornal satírico.

À mesa de um restaurante paulistano, Riss fala baixo e não deixa de responder a nenhuma pergunta sobre o massacre. Voltar ao tema, explica, é uma forma de não ter pesadelos com o atentado. A tranquilidade com que relata o fato chega a surpreender, mas ele admite, porém, que não é fácil lembrar que nunca mais verá seus amigos.

Advogado de formação, diz que durante o tiroteio pensou como jornalista, não como vítima. “A situação ia além de mim”, explica. Via-se em meio de um fato histórico, algo que precisaria narrar — se escapasse, claro. Agora, trata de cumprir o compromisso, e não se cansa de contar o que ouviu. Como se deitou com o rosto virado para o chão, não viu nada, lembra apenas dos sons, dos gritos dos terroristas, dos disparos.

Lembra que ficou muito tempo imóvel, fingiu-se de morto por não saber se os terroristas ainda estavam na redação. Animou-se a tentar escapar apenas quando ouviu tiros na rua, sinal de fuga dos assassinos. Levantou-se e, sem olhar para os corpos, tratou de sair dali.

A antiga sede permanece lacrada. Abrigados no prédio do jornal ‘Libération’, os profissionais do ‘Charlie’ terão nova casa própria em outubro. Não querem voltar para o palco da tragédia. Assim que a Justiça permitir a entrada na antiga redação, eles irão recuperar antigos documentos deixados por lá e jogarão fora todos os móveis. Um sinal de recomeço, de uma outra vida, vida que, para ser preservada, inclui proteção policial o tempo todo. No mês passado, dois jovens foram detidos fotografando a casa de Riss.

O cartunista demonstra preocupação com o fascínio que o extremismo islâmico exerce sobre jovens europeus que deixam suas casas e países para se aliar aos radicais. “Eles não têm ideia do que encontrarão. Lá é que descobrem que não terão qualquer liberdade”, diz. Numa rara piada, afirma que a Síria, destino de muitos desses rapazes e moças, virou um “Woodstock islâmico”, referência irônica ao festival de rock ocorrido em 1969 nos Estados Unidos, um evento que propunha a troca da guerra pelo amor.

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