Karla Rondon Prado: Faça a coisa certa

Havia uma relação respeitosa entre o povo e os agentes públicos, deteriorada por condutas antiéticas

Por O Dia

Rio - O motorista do 410 se joga em cima da faixa de pedestres ao ver o sinal fechar, quase atingindo um cadeirante, um senhor de muletas, uma idosa e a mim, obrigando-nos a desviar rapidamente da tragédia. Do outro lado da rua, um guarda municipal conversa. Vou até ele: “Você não pode multar aquele ônibus, né? Olha que absurdo o que ele está fazendo, quase atropelou as pessoas que saíam da ABBR”. O guarda olha pra mim, como se eu atrapalhasse a conversa dele: “Não tô no meu horário, não”. Eu olho: “Mas você não é guarda municipal? Você não está aqui fardado? Não se importa com as pessoas?!” O cara: “O problema é que, assim que fecha o sinal, o pedestre quer atravessar! Tem que esperar pra ver se os carros vão parar!” Indignada, respondo: “Isso está totalmente errado! Você não percebe?” O sujeito me deixa de lado e volta a conversar.

Sinceramente: como mudar a mentalidade das pessoas?Lutar por um país melhor ou fugir?
Lancei essa questão ontem no Facebook, e percebi nas respostas algo entre tristeza e indignação. Como explicar para um sujeito desses que sua conduta estava errada? Ele não estava no horário dele, mas o que importa? E a postura moral? Por outro lado, ou os vejo no celular, ou conversando. Sou do tempo em que meus pais falavam que, se eu tivesse algum problema na rua, bastaria chamar o ‘Seu Guarda’. Havia uma relação respeitosa entre o povo e os agentes públicos — e, se esta se deteriorou de tal forma, é por causa desse tipo de atitude desrespeitosa, egoísta, altamente antiética. “Ah, vocês quase foram atropelados?

Problema de vocês, eu só trabalho aqui” — no caso, nem trabalhando estava, não dá para aplicar a piada sobre os profissionais que não se envolvem com seus ofícios. Faltam educação, igualdade, leituras até o fim sem conclusões precipitadas.

Nesse mesmo post, uma amiga comentou que pegou o 464 outro dia e o motorista estava andando certinho, na faixa da direita, parando em todos os pontos. Em determinado momento, começou um motim dos passageiros, reclamando que ele estava “muito devagar”. Ela relatou que ele teve que parar o ônibus e ir até os passageiros explicar que não ia descumprir as normas de trânsito só porque estavam gritando. Certíssimo.

Qual a resposta, enfim? Fugir ou lutar?

Na tentativa de ficar, fazer a coisa certa antes de virarmos minoria. Como esse motorista, ou eu mesma, ao reclamar com o guarda. Mas pequei por não ter anotado seu nome. Na próxima, quem sabe eu filme.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião