Por adriano.araujo

Rio - No antigo noticiário policial, a expressão “menor de idade” tinha a função de adjetivar, de dar uma qualidade, para suspeitos de cometer crimes que não haviam completado 18 anos. “Menor de idade”, como feio, ou bonito, negro ou branco, pobre ou rico. Uma adjetivação semelhante às que recorremos para dizer se a comida está boa ou ruim, se a vida anda ótima ou mais ou menos. Palavras que trazem uma subjetividade, que expressam gosto, preferência, juízo de valor.

Já os substantivos definem algo concreto, de existência incontestável — “É aquilo que podemos pegar”, dizia uma professora do primário. São como militares que parecem desdenhar da frivolidade, leveza e imprecisão dos adjetivos. Mas, ao cair na vida, tornam-se mais flexíveis, e, meio a contragosto, os substantivos duros, inquestionáveis, cheios de si, assumem a função de adjetivar objetos e pessoas : “Este livro é uma droga”, “Tal político não passa de um rato”, “Ele é um banana”.

Com a expressão que tratava de jovens criminosos ocorreu o contrário. Ao longo do tempo, ela foi ganhando o status de substantivo. Acusados de cometer delitos passaram a ser chamados de “menores”. Não mais “X., que é menor de idade”, mas “X., menor”. Isto, nos títulos (“Menores acusados de roubar”) e em textos de reportagens (“Os menores X., Y. e Z. foram reconhecidos...”). Em alguns casos, o novo substantivo brigava com a foto que chamava de ‘‘menor” (em tese, pessoa pequena em relação a outras) um galalau de 1,90 metro.

‘‘Menor’’ acabou virando, mesmo fora dos jornais, sinônimo de adolescente criminoso. Ou alguém aí já ouviu um pai ou mãe dizer que, no fim de semana, seu filho ou sua filha convidará alguns “menores”para uma festa? O menor-substantivo tem outras características — é pobre e, quase sempre, negro. Brancos remediados com menos de 18 anos acusados de cometer crimes não são “menores”, mas adolescentes, ou jovens, ou “jovens de classe média”. Num dicionário, o substantivo “menor” poderia ser descrito como “pessoa com menos de 18 anos, pobre, geralmente negra, acusada de cometer crimes”.

E assim, mesmo sem querer, muita gente acaba colaborando para difundir e consolidar preconceitos. Pessoas são concretas, mas também são subjetivas e complexas, exigem, para tentar defini-las, uma imensidade de adjetivos, palavras muitas vezes contraditórias — somos bons e maus; feios para uns, belos para outros. Ninguém pode ser reduzido a um substantivo que enquadre, limite, discrimine e, principalmente, desumanize.

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