Por adriano.araujo

Rio - Vivemos dias trágicos. A cidade está caótica, pontuada pelo século da violência, do caos urbano e da falência das capacidades humanas mais delicadas: educação, gentileza, paciência, espírito de solidariedade, tudo anda escasso. Arcamos com as consequências do desvio de verbas para Educação, Saúde e cultura vindos deste e de outros governos. As mentiras e tramoias do passado batem na porta de modo indisfarçável.

A violência urbana está escancarada, viver no Rio é andar no fio da navalha. Não sei a porcentagem de cariocas que já foram vítimas de alguma violência ou assalto. Quem ainda não foi está na fila, pois, com certeza, um dia será. Não se trata de praga nem desejo sórdido de pessimismo, é realidade mesmo.

Estamos vivendo como na época do Coliseu, assistindo ao sofrimento alheio, pessoas sendo comidas por leões e o povo delirando. É o retorno de tempos bárbaros, mas agora em praça pública, no meio das ruas, dentro dos ônibus, nas estações do metrô. Os diversos modos de violência estão difundidos, encarnados nos cidadãos — dentro e fora da lei.

Bandido é bandido, ladrão é ladrão, não importa o volume roubado nem a forma. O modo de se roubar fica a crédito da criatividade do assaltante.

A falência do poder maior, que o Estado deveria encarnar, faliu já tem tempo. Quando falta o pai, representante legal da lei dentro da família, cabe ao Estado a função de punir e conter o cidadão que transgride. Mas não acontece: o exemplo de impunidade gera impunidade. Vivemos uma pátria sem lei, sem vergonha, acima de tudo. Se papai pode fazer, por que não eu? Se o presidente rouba e assalta a nação e a todos nós, é brasileiro roubando brasileiro, triste, porém real. O Estado, via carga tributária exagerada e desvio de verbas sem limite, tira de nós e pouco nos devolve em serviços, não cumpre sua função.

O poder paralelo, na sua interseção com o poder oficial, nunca poderia tê-lo como amigo e fazer negócios. Mas fizeram, se tornaram íntimos, cúmplices. Dessa relação nasceu esse filho bastardo, violento, vermelho-sangue, a cor da violência reinante desses dias das nossas vidas. Opinião não é palavrão, essa é a minha!

?Fernando Scarpa é psicanalista

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