Siro Darlan: O Papa e os direitos

Francisco não deixa de abordar nenhuma causa que faça alusão à dignidade da pessoa humana

Por O Dia

Rio - Francisco não deixa de abordar nenhuma causa que faça alusão à dignidade da pessoa humana. Em sua viagem à América do Sul, voltou a manifestar sua preocupação com nosso planeta: “A nossa casa comum está sendo saqueada, devastada, maltratada impunemente. A covardia em sua defesa é um pecado grave.” Noutra fala, o Papa convida a todos a lutar pelos direitos ao teto, ao trabalho e à terra. “São direitos sagrados. Que o clamor dos excluídos seja ouvido na América Latina e em toda a Terra”.

Em visita a uma das mais violentas prisões da América, o Papa afirmou que reclusão não é exclusão, mas um processo de reinserção. Dirigindo-se aos carcereiros — que na verdade são todos aqueles que se alimentam do ódio coletivo —, conclamou-os a não investir na violência e a contribuir para restaurar a dignidade. “O papel do servidor do cárcere não é o de humilhar e impor sofrimentos, e sim o de encorajar e restaurar a dignidade.”

Há uma linguagem comum em Francisco que mantém a coerência evangélica, a indignação com o desrespeito e o encorajamento para resistir. Não aceitem, não se conformem, não se deixem humilhar.

Bem no estilo argentino, é preciso lutar sempre na conquista de nossos direitos. Não se pode abdicar dessa luta mesmo quando os adversários forem poderosos e detenham armas que são usadas para subjugar o povo humilde e trabalhador, como tem sido comum a manipulação das mídias que são instrumentos do poder econômico.

Assim como o açoite, o tronco, a palmatória, o pelourinho e as algemas foram utilizados para conter a reação do povo subjugado, agora são outros os instrumentos de contenção que passa pelo aparelhamento das polícias para impedir as manifestações populares, a ação de parcela do ministério público na criminalização das manifestações públicas e alguns segmentos do judiciário submetidos aos interesses do Governante com quem se compõe para receber benefícios.

O Papa, assim como fez Jesus — e por isso foi crucificado —, assume a cátedra de Pedro e conclama os fiéis a restaurar a dignidade da vida para todos, sem privilégios e diferenças. O Papa — temos que o proteger — ousa dizer que todos somos efetivamente iguais em nossas diferenças, e que diante de Deus só existe o gênero humano em suas diversidades e escolhas. Por isso Deus nos dotou da liberdade que a ninguém é dado o direito de cercear.

Siro Darlan é desembargador do TJ e membro da Associação Juízes para a Democracia

Últimas de _legado_Opinião