Jaguar: A reforma da reforma

Jogue o lápis do seu filho fora e dê uma bola de futebol no lugar

Por O Dia

Rio - Ruy Castro escreveu que, fora o mico, foi no mínimo afobada a Reforma Ortográfica. Como diz o dito popular, afobado come cru. Por falar em comer, Ruy cita o caso da lingüiça sem trema. Meu computador velho de guerra ainda não foi avisado, não quer nem saber: bota por conta própria o trema no u. Feijoada com linguiça (argh!) nunca será completa. Tem que ser com lingüiça. E eu já impliquei aqui com a cassação do acento agudo em para (do verbo parar). Repare: o acento em pára é o freio de mão. Sem ele, a palavra fica desgovernada. Parafraseando Caetano, vão reformar a reforma da reforma da reforma da reforma. Hasta cuando? Quem faz a língua é o povo. Aos gramáticos, cabe botar no papel e no dicionário.

Minha senhora, se flagrar seu filho desenhando, jogue fora o lápis e a folha e lhe dê uma bola de futebol. Li no Leo Dias que Guerrero comprou alianças por R$ 54 mil no mesmo dia em que o banco descontou o segundo dos dois cheques de R$ 680 que fiz para pagar as minhas. Isso não me escandaliza, acho muito natural. O que me escandaliza é saber que, no país que já deu Pelé, Garrincha, Newton Santos, Didi e outros fenômenos, os times estejam importando craques, quando deveriam chamar técnicos como Guardiola e aquele português do Chelsea. Mas não: continuam insistindo — burros como português de anedota — nos brucutus Felipão, Dunga & Cia. E ainda temos que agüentar (com trema) a piada pronta: Guerrero vai passar a lua de mel em casa, no Peru. Ele é o melhor jogador do Flamengo, e o colombiano Riascos, o melhor do Vasco. A isso chegou o nosso futebol.

Anoto frases entreouvidas na rua enquanto bato perna pelo Leblon. Duas madames: “Ele disse: ‘Me espere’. Esperei 16 anos.” Um casal: “O ideal é comprar um carro que não seja muito caro nem muito barato. Porque o barato às vezes sai caro” (lembra o texto, um sarapatel de lugares-comuns, de ‘Babilônia’). Ivan Lessa, quando entrávamos em elevador cheio de gente, adorava dizer: “E acabei de matá-la a pontapés.” Eu fazia um gesto para ele parar de falar; com certeza todos que estavam no elevador iriam procurar no jornal do dia seguinte a notícia de um bárbaro assassinato.

Pois é: um peruano e um colombiano são os melhores jogadores no Brasil. Eduardo Sued, nosso grande pintor de vanguarda, tem 90 anos. O surrealista Dalì deveria ter nascido aqui.

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