Fernando Scarpa: Cortando relações com o ‘amigo’ cigarro

Muito já se falou sobre métodos de ‘largar o cigarro’: parar abruptamente ou aos poucos?

Por O Dia

Rio - Parar um velho hábito, mesmo nocivo à saúde, implica dificuldade, contraparte do desejo de não mais continuar a fazê-lo. Fazer dieta, afastar as drogas, comprar compulsivamente ou, em especial, deixar de fumar é complicado. Como acontece com a maioria das decisões, começamos cheios de fôlego e, ao longo dos dias, vamos enfraquecendo. O melhor é viver cada dia como único e não pensar no futuro. Renovar a decisão a cada manhã sempre vale a pena.

Muito já se falou sobre métodos de ‘largar o cigarro’: parar abruptamente ou aos poucos? Cada um deve pensar no que é mais adequado ao seu perfil. Um dos caminhos mais comuns é falar mal desse ‘amigo’ de todas as horas, transformando-o em inimigo. A tentativa é válida, assustar o sujeito com o pior. Só um porém: o adversário tem poder, não se deve menosprezá-lo! A sensação de bem-estar e prazer de dar uma tragada supera todos os males. Nos adaptamos a eles ao longo dos anos: o estar cansado, o fedor que exala, o pigarro que insiste em coçar a garganta, a falta de fôlego, o dinheiro gasto, tudo se naturaliza, se torna parte do comportamento e define a existência do fumante.

As lembranças associadas à fumaça e aos momentos são românticas, inesquecíveis! Quem já foi fumante ou ainda é pode atestar! Creio que aí reside a dificuldade maior — as boas lembranças, os bons momentos!

Tratá-lo como inimigo não me parece boa estratégia, melhor como o amigo que tem seus defeitos maiores que as qualidades. Toda amizade, com o tempo, acaba estremecida. Sentimos alívio e bem-estar longe de quem nos faz bem e mal ao mesmo tempo. A saudade é inevitável. Apesar disso, lembre daqueles cigarros fumados mais por obrigação do que por prazer, por vício mesmo. Os que descem mal fazem doer o estômago e dão azia. Aqueles que você apaga antes da metade porque já está esgotado.

Sim, em alguns momentos sentimos raiva deles. Mesmo o fumante mais convicto tem seus dias de azedume. Que tal aproveitar um dia desses para cortar a amizade e sentir o prazer da liberdade sem desprezar o amigo que te acompanhou nas boas horas também? Amigo caprichoso nos faz de súdito, dá trabalho carregá-lo. Ouvi dizer que amizade é como café, depois que esfria, nunca mais é a mesma!

Fernando Scarpa é psicanalista

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