Por bferreira

Rio - Desde sempre se diz que um negócio só é bom quando é bom para os dois lados. Faz todo o sentido. Ou fazia. Vejam só: duas moças precisam trabalhar, como todo mundo aliás. Uma outra moça precisa de funcionários e contrata as moças. As moças cumprem suas funções. A contratante está satisfeita com o trabalho delas. Instala-se uma relação de respeito aos direitos e deveres das três. A vida segue normalmente. Mas só até a página dois. Porque uma foto das duas moças trabalhadoras, publicada na internet, vira uma grande confusão.

Não, as moças não estão com sinais de tortura, nem parecem humilhadas. Ao contrário, parecem felizes. A patroa só publicou a foto porque também está feliz com o trabalho das moças. Mas as moças são negras e a patroa é branca e há quem veja racismo. E se as moças fossem brancas e a patroa negra? Será que seria considerado racismo? Será que as moças brancas seriam chamadas de mucamas, só porque são empregadas ou funcionárias de uma patroa negra? As babás brancas são diferentes das babás negras?

Desde quando ao contratar alguém a cor da pele tem que vir em primeiro lugar? Eu sei que esta questão é um vespeiro e só fico mais à vontade para escrever porque senti um clima de perigoso racismo nestas reclamações mais exaltadas. É bom deixar claro que não conheço nenhuma das partes envolvidas. E espero que as duas moças e a patroa continuem a ter relação de respeito, amizade e trabalho, sem se deixar levar pelo rancor alheio.

O clima de carinho que senti na publicação da foto me fez lembrar que tive uma babá negra ,Irene, que eu chamava de Pepei. Era linda. Era porta-bandeira da escola de samba Turunas do Riachuelo, lá em Juiz de Fora, e minha mãe me levava para vê-la dançar. Se tivesse internet, minha mãe provavelmente teria publicado uma foto de Pepei, que eu, provavelmente, mostraria orgulhosa aos meus coleguinhas. Será que despertaria esta mesma discussão? Será que estava certo naquela época e está errado agora? E não foi só ela que me faz lembrar com carinho de uma babá. Durante anos, meu filho teve uma babá muito especial, Derli, que também era negra. Juntas, eu, ela e ele, fizemos inúmeras matérias para revistas de televisão, com direito a fotos, carinhos e abraços. Sem estes protestos. E mais: ela não foi só importante na minha vida e na dele. Foi decisiva, assim como eu, para a construção da pessoa amorosa que ele é hoje. O que faz diferença , o que importa, não é , nunca foi, nem nunca será a cor da pele, mas sim o respeito e o carinho. E a certeza que o trabalho honesto é um direito de todos.

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