Wadih Damous: Na estação Madureira, a banalização da vida

O termo ‘vida indigna de ser vivida’ adquire contornos outros em tempos em que o capitalismo impera absoluto como forma de produção no mundo

Por O Dia

Rio - O livro ‘A liberalização da supressão da vida sem valor’, de Karl Binding e Alfred Hoche, foi editado na Alemanha em 1920 e tem como tese central a defesa da autorização do aniquilamento da vida indigna de ser vivida, baseado no darwinismo eugenista, muito em voga na Europa daqueles anos. Assim, se defendia a eliminação das pessoas gravemente doentes ou que sofressem de perturbações psíquicas, por exemplo.

Karl Binding era um especialista em Direito Penal, e Alfred Hoch, psiquiatra. Ambos não eram nazistas; inclusive, Hoch pediu demissão da universidade quando Adolf Hitler assumiu o poder. Posteriormente, o regime nazista levou às últimas consequências o pensamento da superioridade da raça ariana, o que resultou na matança do Holocausto.

O termo ‘vida indigna de ser vivida’ adquire contornos outros em tempos em que o capitalismo impera absoluto como forma de produção no mundo. Adílio Cabral dos Santos vendia balas nos trens do Rio de Janeiro e morreu na contramão, atrapalhando o tráfego na Estação Madureira.

Ao fugir da fiscalização, junto com seus colegas de trabalho, foi atropelado por um trem enquanto corria por entre os trilhos da estação. Seu corpo ficou atravessado na frente de outro trem que, por ordem da empresa, passou por cima de seu corpo para que não houvesse mais interrupção do fluxo nos ramais.

Adílio dos Santos cumpriu sua sentença. Cumpriu a sina de uma vida indigna de ser vivida para o capitalismo. A empresa, entre proporcionar atendimento médico para o ambulante ou mandar que o trem passasse por cima de seu corpo, não titubeou e deixou que aquela máquina de milhares de toneladas estraçalhasse seus ossos. A mãe de Adílio, Eunice de Souza Feliciano, de 61 anos, disse que seu filho havia saído da prisão em outubro de 2014 e estava tentando reestruturar a sua vida.

Para garantir o velório, no valor de R$ 2 mil, seu irmão precisou vender uma pulseira. Eunice soube da morte do filho pela televisão, mas não de imediato. A matéria não trazia seu nome, sequer seu rosto. Vida indigna de ser vivida.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT


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