Por bferreira
Publicado 11/08/2015 00:11

Rio - Já tratamos aqui da obra do pensador chileno Carlos Matus. Em ‘O Líder sem o Estado-Maior’, propõe a alegoria do governante que se prende numa jaula de cristal cercada de áulicos (bajuladores) depois de interpretar o papel estafante de ator junto aos cidadãos, dissimulando, enganando e mentindo. Dilma, depois de eleita com falsas promessas, paga esse preço, sofrendo o mesmo processo de isolamento de Getúlio Vargas.

Ainda na campanha, Getúlio, em entrevista à ‘Folha da Noite’, de São Paulo, antevendo as resistências, afirmou: “Eu conheço meu povo e tenho consciência nele. Tenho plena certeza de que serei eleito, mas sei também que, pela segunda vez, não chegarei ao fim do mandato. Terei de lutar. Até onde resistirei? Se não me matarem, até que ponto meus nervos poderão aguentar?” Assim, completando suas profecias, previu que ficaria isolado, com apenas três partidos, e na reforma ministerial com poucos ministérios, com João Goulart no Trabalho. Seu governo não resistiu às forças conspiradoras, e a tragédia prenunciada se concretizou.

Dilma passa por processos semelhantes de isolamento no Congresso e com a derrocada da Petrobras, envolvida na Lava Jato. A reforma ministerial que está sendo anunciada não abafa a crise de governabilidade, pois a presidenta não tem sob seu comando um único ministério de peso que possa servir de moeda de troca nas negociações diante da rebelião da base aliada.

A presidenta esqueceu os milhões de eleitores que lhe deram a vitória, rachou seu partido e achou que poderia governar sem a mão do criador, o ‘mito Lula’, que mesmo com todos os escândalos envolvendo a cúpula do PT continua imune de acusações diretas de corrupção. Dilma não é Getúlio nem Lula, que conhece de povo. A presidenta é uma burocrata de gabinete. Os panelaços se irradiam, e o ambiente político é fértil para desencadear o processo de impeachment ou de asfixia de seu governo, levando à renúncia.

O líder político vindo das bases populares não pode se enclausurar em gabinete: tem que voltar às ruas para ouvir toda a sociedade. A presidenta, em campanha vitoriosa nas urnas, protagoniza a alegoria matusiana. Cabe lembrar que o fatídico 24 de agosto está chegando.

Wilson Diniz é economista e analista político

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