Saturnino Braga: A Grécia, a Alemanha e a União Europeia

Hoje, os alemães impõem seu domínio, não somente na Grécia, mas sobre todo o continente

Por bferreira

Rio - A decepção que se difundiu entre os gregos se alastra sobre o mundo. Houve um acordo, mas que custará mais sacrifícios ao povo. E o espírito da União Europeia?

O mercado é, realmente, necessário, pois põe a produção em consonância com a demanda. Mas a lógica do mercado favorece implacavelmente os que estão com o capital mais concentrado. E aos compradores, por ter produtividade maior, ou por estar cartelizados, ricos. Eles é que ditam as condições.

Nos mercados internos, a lógica é a mesma. Estados cuidam de corrigir os efeitos dessa concentração com políticas de impostos progressivos e de subsídios e favorecimentos às regiões pobres. No entanto, a concentração continua a ocorrer implacavelmente a favor dos mais ricos. Como ensina o economista francês Thomas Piketty.

No âmbito internacional, o problema se manifesta em toda a sua crueza por falta de uma entidade supranacional capaz de administrar dispositivos de correção. E os conflitos dele derivados continuam como a principal causa das guerras.

O FMI e o Banco Mundial, criados após a 2ª Guerra Mundial, socorrem nações em dificuldades, mas impõem condições que acabam por favorecer os interesses dos mais ricos. A criação da União Europeia, entretanto, acenou ao mundo como uma primeira tentativa de formar um bloco regional. Que dispusesse de dispositivos políticos supranacionais capazes de mecanismos de correção da regra de ferro dos mercados.

Parecia que um espírito novo iria pairar sobre aquele continente cansado de tanta barbárie. Mas isso não funcionou. Prevaleceram interesses estritamente nacionais, sobretudo da nação mais forte. A Alemanha, que se recuperou das guerras graças ao perdão de sua enorme dívida e à ajuda americana do Plano Marshall, ganhou poder de comando na Europa Continental.

Hoje, os alemães impõem seu domínio, não somente na Grécia, mas sobre todo o continente. Exceto sobre a Rússia. A França ainda luta e se julga independente. Mas a Alemanha só não comanda o Reino Unido porque esse tem respaldo forte do outro lado do Atlântico. Já saiu do euro e acabará, até mesmo, na possibilidade de vir a deixar a União Europeia.

Saturnino Braga é escritor e pres. do Centro Celso Furtado

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