Moacyr Luz: Andança

Da varanda, peito inflado, improviso um choro de Raul de Barros. Na Glória!

Por bferreira

Rio - Vi tanta areia, andei. Estou na cozinha, janela basculante aberta pra área de serviço, escuto a conversa vizinha: “Dona Fulana! O que ‘qui’ houve com as panelas? Meu Deus, Dona Fulana... Como é que eu vou fazer o almoço?”

Moro na Glória, na primeira subida da Cândido Mendes. Esta definição geográfica carrega um sentimento traumático. Basta eu dizer o nome da rua que o taxista fuzila: “Santa Teresa?!” Respiro fundo, gesticulo apontando um gelo baiano pintado de amarelo como ponto final do meu trajeto, pego a carteira, dedo indicador esguio: “É ali”, até baixar a tensão das suprarrenais do condutor.

Sem preconceito, subindo a íngreme via, curvas fechadas e escorregadios paralelepípedos, você alcança um bairro de personalidade marcante, Santa Teresa. Morei lá por dois anos, de cara pro Bar do Mineiro, referência nos guias de turismo, na gastronomia carioca, ambiente privilegiado. Um senso despretensioso revelaria números impressionantes de poetas e artistas plásticos morando entre becos e o casario restaurado neste cocuruto da cidade. Nem nas colinas de Montmartre, em Paris, encontro tantas nuvens de inspiração, do mimeógrafo ao digital, do acústico ao DJ estroboscópico, tudo bicho-grilo.

Esbarro num amigo, grande frasista, cabelos molhados, na portaria de um prédio em Laranjeiras: “Ué! Se mudou de Santa?” Tive alta! Paulão Sete Cordas, antigo residente na região, traduz o começo da minha rua como a Turquia do pedaço. Caminhões manobram num guardanapo que escapou do Transita, boteco reformado e, dependendo dos eixos, o trânsito trava já no Largo da Lapa. Também tem carteado e mototáxi na mesma canastra, um barbeiro, loja de doces, mercado apertado e camelôs vendendo pilhas e banana-d’água.

Na outra calçada, um real braseiro estalando o carvão, dá conta dos galetos desnudos. Seguindo, mais um botequim com a tevê ligada e cinco mesas no mínimo salão. Fechando o ‘Google Street’, o Restaurante Vila Rica. Percebe-se pelas trincheiras etílicas que, a pé, é quase impossível chegar sóbrio em casa. Do Bar Solange, não passa.

Assim é uma rua carioca. Emaranhado de tendências, descolados e deslocados, passado e futuro dividindo a sandália. Aqui, Loja de Ferragens e a elegante Casa da Suíça com seus fondues disputados pelos apaixonados de bom paladar. Sim, tem bicheiro, mas evitei o assunto pra preservar a banca. Perto, os travestis povoam a nova Augusto Severo. Na murada recuperada, a maresia da feira de domingo resiste desde as marés da Baía, limpa.

Hoje, do mar, mais distante, a brisa assina o atestado de Zona Sul pra esse litoral de histórias, outeiro e metrô, duque na mesma linha. Da varanda, peito inflado, improviso um choro de Raul de Barros. Na Glória!

E-mail: moaluz@ig.com.br

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