Por bferreira

Rio - Já perdi a conta do número de vezes que falei ou escrevi sobre a função da escola na sociedade. Minha maior preocupação sempre foi deixar claro que, diferente da família, o papel da escola tem a ver com o coletivo, com a dimensão pública, com o convívio grupal. A escola serve, acima de tudo, para ensinar tudo o que de mais relevante já se criou ou se descobriu em forma de conhecimento, atitudes, valores e procedimentos. Desenvolver autonomia intelectual e tornar os alunos comprometidos com o que é socialmente justo e democrático de forma a interagir conscientemente com o mundo é a função transformadora da escola.

Num país em desenvolvimento como o nosso, sabemos que a função social da escola precisa ser ampliada, por força de seu alcance e interação com as famílias e comunidades. Distribuir uniformes e material, oferecer alimentação diária, controlar para que todas as famílias encaminhem seus filhos, oferecer transporte e, em alguns casos, controlar se todos foram vacinados passam a ser tarefas inerentes à escola. Além disso, promover a conscientização a respeito de questões como etnia, sexualidade, religião e gênero são parte obrigatória do currículo. Entendemos a intenção e até a necessidade, mas a pergunta que não quer calar é: com sua função social inchada, como anda a função pedagógica?

O grande educador português António Nóvoa nos adverte sobre isso, ao criar o termo “escola transbordante”, que é aquela que está ‘transbordando” de atividades sociais, em detrimento de sua principal função, que é a aprendizagem dos alunos. Ele chama a atenção para a clara distinção que vemos hoje entre uma escola pública transbordante voltada para as classes populares e uma escola privada de elite, totalmente voltada para a função pedagógica.

Pelo visto, a escola pública vai continuar a exercer fortemente sua função social. Parece-me urgente, então, que ela passe a ter pessoas específicas para isso. Assistentes sociais, orientadores educacionais e educadores sociais são alguns dos profissionais necessários para que a escola não deixe de lado sua função pedagógica e para que os professores dediquem-se integralmente a fazer com que os alunos aprendam de forma efetiva.

Júlio Furtado é professor e escritor

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