Ricardo Cravo Albin: Abandono, desolação e piedade com artistas

Ao longo de quase uma década, ao consolidar o Museu da Imagem e do Som nos anos 60, convivi com a miséria e a desolação de artistas queridos

Por O Dia

Rio - O entardecer de quase todos os artistas, sobretudo aqueles que brotam da alma popular, é, quase sempre, desolador. A miséria fica à espreita, golpeando-lhes sem piedade até a subsistência física, quando não fazendo-os padecer de solidão e de abandono.

Ao longo de quase uma década, ao consolidar o Museu da Imagem e do Som nos anos 60, convivi com a miséria e a desolação de artistas queridos. E, a partir daí, a carência e o abandono de tantos de minha estima se fizeram tragicamente aclarados dentro de meu coração.

Um soluço de compaixão e inconformismo levou-me a tentar afagos pontuais. Acode-me agora, pela brisa da memória, os espetáculos que promovi pelo MIS para arrecadar fundos. Fiz shows para manter o sambista pioneiro João da Bahiana com assistência de enfermagem pessoal e permanente no hospital, já à beira da morte. Outros tantos para arrecadar fundos para Alaíde Costa poder fazer urgente operação nos ouvidos. Ou ainda para tirar das dificuldades cavilosas gente de benquerença pública como Moreira da Silva, Aracy Cortes ou Grande Otelo. Tudo nos anos 60, virada dos 70.

Recentemente, assisti, com o coração consternado, ao abandono de amigas queridas como Carmélia Alves, ou Carminha Mascarenhas, ou mesmo Rosana Toledo, Helena de Lima e o maestro Edson Frederico, as duas primeiras conduzidas por mim ao Retiro dos Artistas. Digna instituição que acolhe fraternamente os abandonados pela sorte, como os citados acima, que não tiveram como ficar sem cuidados, ou sem companhias. Ou até sem comida.

Há dias fui procurado pelo dançarino e cantor Bob Lester, cuja alma inquieta não se acostumou à disciplina do Retiro. E, aos 102 anos (102!!!), aspira a viver sem amarras e a poder sorver as ruas e o bulício da cidade. Andarilho rebelde que sempre foi. Ao se propor para ele uma contribuição de amigos no sentido de mantê-lo em um quarto modesto de hotel de segunda categoria, argumentou nosso querido Jerry Adriani que isso poderia ser um paliativo. E que logo a situação de carência do Bob se perpetuaria. Mas uma pergunta se faz óbvia: aos 102 anos, que futuro longínquo e que doações prolongadas provocarão incômodo para aos que contribuírem?

Ricardo Cravo Albin é presidente do Inst. Cultural Cravo Albin

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