Por bferreira

Rio - Então, eu estava no portão lateral da Cidade do Samba, ali na Rivadávia Correa, cujo túnel vai dar na Central do Brasil. Olhei a rua em barro puro, vi caminhões, guindastes e um prédio vermelhão no meio de tudo, em lajotas brilhosas. Atraído pelo visual saí andando, hipnotizado. “As obras do porto”, uma entidade que ouvimos falar diariamente, só que eu fui atrás, encantado, para conferir. Entrei na Rua do Propósito (que nome ótimo), é uma pequenininha que sai onde eu estava. Cheguei nela esquina com Rua da Gamboa, e aí fui perguntando para os moços de macacão e capacete: o que é isso, o que é aquilo?

Eles foram dizendo: aqui é a calçada onde os pedestres vão andar. Aqui é a marca dos trilhos. Que trilhos? Do VLT que vai passar aqui. Voltou tudo na memória. O tal veículo leve sobre trilhos. Então é isso? Qual o percurso? Vai ficar dando voltas entre a Rio Branco e aqui. Show. Vi uns moços negros sentados num sofá velho, sob o sol. Exclamei: adorei a sala de vocês. Vi o container na esquina, eles me conheciam da TV, acho que angolanos, bati um papo, e me mandei.

Subi os olhos, porque o chão era areia, buracos colossais onde passam canos enormes, ou já está pavimentado com a marca do novo meio de transporte. Vi o casario, lindo. Mas aí comecei a ver céu e paisagem atrás dos buracos das janelas. Meu Deus, só tem a casca, só o frontispício, falta tudo. Muita construção desmoronando, muito coisa em petição de miséria. Uma ou outra já reformada, belíssimas. Delas a gente pode imaginar o que seria ou o que será, se todo mundo recuperar.

Cheguei no prédio da Fundação José Bonifácio, belíssimo. Todo em pedras. Quando os turistas chegarem vai ser um espetáculo. Tomara que os cariocas e brasileiros cheguem junto, porque vale a vista. Sentei para comer bolinho de bacalhau no famoso bar do Candinho. Comi, perguntei muito, mas seu Candinho está com a macaca, furioso com as obras que segundo ele destruíram a clientela. Vai precisar de mais paciência, Candinho. Seja cândido.

Sem esperar, distraído com tanta informação, estava defronte de duas casas lindas com vidros: “Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos”. Os três diretores, Ana Maria, Antonio Carlos e Penha me receberam sorridentes. Me explicaram das escavações há vinte anos para reformar casas, quando foram encontrando as ossadas e que daí surgiu a ideia da Casa de Cultura, que está maravilhosa.

A exposição temporária em cartaz é Casulo e as instalações valem a visita. Quando isto ficar pronto, deve bombar mais que a Lapa. Porque achei que, de dia e de noite, as estreitas ruas e tantos cariocas simpáticos vão seduzir os visitantes. Tudo isso em 15 minutos a pé, desviando de obra. Tinha um mundo coladinho em mim que eu achava que era superlonge.

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